Arena de Propostas ou Palco para Redes Sociais? – Rui Leitão

Lula e Flávio Bolsonaro em cenário de empate técnico em pesquisa Datafolha para 2026
Lula e Flávio Bolsonaro em cenário de empate técnico em pesquisa Datafolha para 2026.

 

​Ao que tudo indica, só assistiremos a confrontos realmente relevantes na campanha presidencial em um eventual segundo turno, sobretudo com a presença dos dois candidatos que lideram as pesquisas. O debate promovido pela TV Bandeirantes deixou claro que o formato atual dificilmente desperta entusiasmo no eleitorado, a ponto de um candidato a vice-presidente ter sido flagrado dormindo.

​Para se ter uma ideia, a audiência da TV Record durante a entrevista com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva superou a do próprio debate transmitido no mesmo horário. Isso sugere que o eleitor prefere ouvir propostas e discutir os problemas concretos do país a testemunhar uma sucessão de ataques e provocações. Debates deveriam priorizar projetos e visões de país, não se transformar em arenas de agressões ou alavancas para cortes em redes sociais.

​Esses encontros oferecem maior risco de desgaste justamente aos nomes com chances reais de ir ao segundo turno. Em uma eleição polarizada, Lula, principal liderança da esquerda, torna-se o alvo natural dos adversários. Com sua ausência, o centro de gravidade dos debates tende a se deslocar para os nomes da direita, que passam a disputar entre si o eleitorado conservador em um verdadeiro confronto interno. ​Enquanto a oposição debatia entre si, Lula utilizou o espaço da entrevista na Record para aprofundar temas de interesse público sem se expor a um bate-boca de pouco valor eleitoral.

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Transmissões com mais de seis candidatos, muitos deles sem viabilidade eleitoral, dificilmente mantêm um alto nível de discussão. A tendência é a prevalência de ataques pessoais voltados à repercussão digital. ​Nesse contexto, recusar certos formatos pode ser interpretado não como desrespeito à democracia, mas como cálculo estratégico. A história recente do país confirma essa dinâmica: em 1998, Fernando Henrique Cardoso, então candidato à reeleição, optou por não participar de debates no primeiro turno e venceu a disputa. A experiência mostra que a ausência nesses eventos não acarreta, necessariamente, uma punição por parte dos eleitores.

​Além disso, dividir o palco com candidatos de menor expressão concede a eles palanque para provocar confrontos e buscar engajamento instantâneo. Uma provocação de poucos segundos pode gerar mais impacto digital do que horas de debate programático.

​Diante de uma base consolidada e do recall de suas gestões anteriores, a exposição a “franco-atiradores”, que têm pouco a perder e muito a ganhar com a visibilidade de um confronto direto, representa um risco desnecessário. Para o presidente, o lugar mais produtivo neste momento pode ser a rua, em contato direto com a população.

​Debates são essenciais para a democracia quando permitem comparar projetos. Contudo, ao se reduzirem a palcos de agressões gratuitas, perdem sua função primordial. A estratégia mais pragmática consiste em preservar a liderança, dialogar com o eleitorado e reservar o embate direto para o segundo turno, caso ele venha a ocorrer.

Rui Leitão

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