Ao que tudo indica, só assistiremos a confrontos realmente relevantes na campanha presidencial em um eventual segundo turno, sobretudo com a presença dos dois candidatos que lideram as pesquisas. O debate promovido pela TV Bandeirantes deixou claro que o formato atual dificilmente desperta entusiasmo no eleitorado, a ponto de um candidato a vice-presidente ter sido flagrado dormindo.
Para se ter uma ideia, a audiência da TV Record durante a entrevista com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva superou a do próprio debate transmitido no mesmo horário. Isso sugere que o eleitor prefere ouvir propostas e discutir os problemas concretos do país a testemunhar uma sucessão de ataques e provocações. Debates deveriam priorizar projetos e visões de país, não se transformar em arenas de agressões ou alavancas para cortes em redes sociais.
Esses encontros oferecem maior risco de desgaste justamente aos nomes com chances reais de ir ao segundo turno. Em uma eleição polarizada, Lula, principal liderança da esquerda, torna-se o alvo natural dos adversários. Com sua ausência, o centro de gravidade dos debates tende a se deslocar para os nomes da direita, que passam a disputar entre si o eleitorado conservador em um verdadeiro confronto interno. Enquanto a oposição debatia entre si, Lula utilizou o espaço da entrevista na Record para aprofundar temas de interesse público sem se expor a um bate-boca de pouco valor eleitoral.
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Transmissões com mais de seis candidatos, muitos deles sem viabilidade eleitoral, dificilmente mantêm um alto nível de discussão. A tendência é a prevalência de ataques pessoais voltados à repercussão digital. Nesse contexto, recusar certos formatos pode ser interpretado não como desrespeito à democracia, mas como cálculo estratégico. A história recente do país confirma essa dinâmica: em 1998, Fernando Henrique Cardoso, então candidato à reeleição, optou por não participar de debates no primeiro turno e venceu a disputa. A experiência mostra que a ausência nesses eventos não acarreta, necessariamente, uma punição por parte dos eleitores.
Além disso, dividir o palco com candidatos de menor expressão concede a eles palanque para provocar confrontos e buscar engajamento instantâneo. Uma provocação de poucos segundos pode gerar mais impacto digital do que horas de debate programático.
Diante de uma base consolidada e do recall de suas gestões anteriores, a exposição a “franco-atiradores”, que têm pouco a perder e muito a ganhar com a visibilidade de um confronto direto, representa um risco desnecessário. Para o presidente, o lugar mais produtivo neste momento pode ser a rua, em contato direto com a população.
Debates são essenciais para a democracia quando permitem comparar projetos. Contudo, ao se reduzirem a palcos de agressões gratuitas, perdem sua função primordial. A estratégia mais pragmática consiste em preservar a liderança, dialogar com o eleitorado e reservar o embate direto para o segundo turno, caso ele venha a ocorrer.
Rui Leitão

