Deve o jornalismo “farmar aura?” A pergunta parece ser provocativa, etarista e até um tanto irônica. Vou logo explicando o que porra é “farmar aura”… Basta dois gramas de Google para saber que isso nada mais é do que uma gíria da geração Z que significa “promover ações, gestos marcantes ou atitudes legais para atrair a admiração dos outros e elevar o próprio prestígio ou ego”.
Muita gente ingênua acha que o jornalismo é uma coisa atemporal, solta na sociedade e que ele sempre existiu. Nada disso: para entender a chamada crise do jornalismo de hoje, é preciso rever sua história. Um auxílio luxuoso para isso seria o livrinho de Ciro Marcondes Filho chamado ‘A Saga dos Cães Perdidos’, publicado lá no distante ano 2000. Nele, o professor revisita a história da profissão frente às mudanças ocorridas com a tal sociedade da informação. Da chamada imprensa artesanal aos grandes conglomerados de mídia, muita coisa se passou. Como diz Escurinho em sua música, é muita “onda dentro da onda”: revoluções tecnológicas, crises de paradigmas, crises de credibilidade do jornalismo, etc.
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O jornalismo pode ser visto como um elemento iluminista de secularização da cultura, como um dos pilares da democracia, como o quarto poder, como uma forma de esfera pública do debate democrático. No entanto, com a chegada massiva da internet e do celular, nos encontramos hoje no que Umberto Eco chama de “ditadura dos imbecis” — ou seja, a web promoveu o idiota da aldeia a portador universal da verdade; isso é um fato. Assim, o jornalismo foi perdendo cada vez mais público e credibilidade.
Basta ver que os próprios fascistas locais e os revolucionários de gabinete não acreditam mais na própria imprensa burguesa, aquela chamada indústria cultural. Os sistemas de crença tanto da esquerda quanto da direita parecem ser uma coleção de paranoias e preconceitos forjados no inferno da deep web ou na manipulação dos algoritmos. Talvez a gente deva ser salvo por uma conspiração alienígena para que voltemos em paz para a tranquilidade da Idade Média, para o tempo dos templários, mesmo estando em plena Idade Mídia. Quem sabe?
Virgem Mãe do Céu me livre de ser influencer. Esse tipo de gente quer vender a mãe pela Shopee, com frete grátis e sem devolução. Eu lembro de outro livrinho fundamental na minha vida de estudante, chamado ‘O Império do Grotesco’, do genial Muniz Sodré, que nos abre os olhos para o fato de que a humanidade sempre teve um pé no grotesco, inclusive nas artes. Ele analisava a cultura dos anos 70, tipo Silvio Santos e companhia, para mostrar que esse tipo de comunicação sempre teve seu público. E hoje, nos tempos de “farmar aura”, parece que tudo é grotesco na rede, no TikTok, no Instagram, em todo esse universo doentio da fama a qualquer custo, da sociedade de vigilância produzindo violência engarrafada para as TVs.
Não estou dizendo que o jornalismo não participa do jogo de poder. Influenciar dentro de um quadro aparente de um paradigma de racionalidade e de parâmetros supostamente éticos parece ter sido um dos motes da mídia industrial. Só que essa página foi virada abruptamente pela sociedade da informação, com o que Armand Mattelart, em ‘A Globalização da Comunicação’, chama de abertura do polo emissor, quase sem regras nem regulação responsável.
Talvez a “aura” da chamada imparcialidade do jornalismo esteja desbotada, uma vez que seu monopólio informativo foi rompido pela onda dentro da onda da revolução tecnológica. O jornalismo parece mais preocupado em manter essa máscara com uma aparente skincare do que em reconquistar esse lugar perdido. Talvez as pessoas queiram hoje mais ter uma opinião baseada em achismos do que em fatos. O fato e o fake andam abraçados, passeando como namorados na Lagoa. Talvez a grande mídia tenha abusado de seus truques com fatos fakes durante muito tempo, principalmente às vésperas de eleições.
Eu sei que a coisa toda mudou radicalmente, como McLuhan falava da explosão da comunicação na Aldeia Global. Mas não se enganem: a orquestração silenciosa das multidões pelas Big Techs tem um preço e um método. Essa engenharia do caos parece ter abdicado do jornalismo como narrativa do real. Enfim, será que a gente deve se acostumar a viver nesse deserto de mentiras?!
Formar jornalistas em plena onda dentro da onda não é tarefa fácil. No tempo em que o jornalismo tinha um olhar para o social, o bom jornalista era reconhecido por seu texto e compromisso; hoje, é contratado pela quantidade de seguidores que tem. Por isso, muita gente se preocupa apenas em “farmar aura” para garantir a sobrevivência. Recentemente, foi regulamentada a chamada profissão de multimídia, sobrepondo-se ao profissional de jornalismo. Talvez essa lei venha a dar uma profissão aos chamados imbecis da rede, denunciados em sua superficialidade pelo escritor Umberto Eco.
Em um capitalismo de dados, famosos e celebridades correspondem aos santos e beatos da Idade Média. Uma sacralização da fraude e do politicamente incorreto vai povoando a rede como um vírus que invade o imaginário. Em um mundo devastado pela pandemia e pela guerra, talvez o universo mágico e rico das celebridades nos ajude, como um coach sinistro, a melhor viver no país das maravilhas de Alice.
* Carlos Azevedo Filho é jornalista formado pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Iniciou a vida profissional no jornal O Norte, dos Diários Associados. Depois foi editor de Cultura do Jornal Correio da Paraíba. É escritor, tendo publicado pela editora Lattus o livro “A voz da infância e outras vozes”. É professor do departamento de Jornalismo e pesquisador das relações entre Jornalismo e Literatura no Brasil na UFPB.
