Recentemente, em fevereiro de 2026, os funcionários técnicos-administrativos da universidades federais entraram em greve para que o governo federal implementasse efetivamente o Reconhecimento de Saberes e Competências (RSC), mecanismo destinado a reconhecer conhecimentos e experiências adquiridos ao longo da carreira, semelhante ao existente para outras carreiras federais.
Com o RSC, o servidor pode solicitar que sua experiência profissional seja avaliada. Para isso, deve apresentar documentação e um memorial descritivo demonstrando sua trajetória. A análise é feita por uma comissão instituída pela própria instituição federal de ensino. Entre os elementos que podem ser considerados estão, a) participação em projetos institucionais; b) atuação em ensino, pesquisa, extensão, inovação e gestão; c) participação em comissões e grupos de trabalho; d) produção técnica ou científica; e) desenvolvimento de soluções inovadoras; e) premiações e reconhecimentos profissionais e f) outras competências adquiridas durante a carreira.
O aspecto mais relevante é que, em determinadas situações, o RSC permite ao servidor receber um percentual de Incentivo à Qualificação correspondente ao de um nível de escolaridade superior ao que ele efetivamente possui. Se o técnico-administrativo tiver o título de mestre, o RSC pode levá-lo a ter a remuneração de um doutor sem nunca ter feito um doutorado.
As universidades federais constituem organizações complexas cuja missão institucional está assentada sobre três pilares: ensino, pesquisa e extensão. Essas atividades representam sua atividade-fim. Para que elas sejam realizadas, existe uma ampla estrutura administrativa formada pelos técnicos-administrativos, responsáveis pelo funcionamento cotidiano da instituição, esta é a atividade meio.
Não há dúvida de que ambas as carreiras são indispensáveis. Entretanto, sob a ótica da teoria das organizações e da economia institucional, indispensabilidade não significa identidade de funções nem exige, necessariamente, estruturas de incentivos equivalentes.
Quando uma organização passa a reduzir substancialmente as diferenças de incentivos entre atividades-meio e atividades-fim, surge uma questão relevante, qual seja, essa política fortalece ou enfraquece a missão institucional?
A produção científica exige anos de formação. Um professor doutor normalmente percorre graduação, mestrado, doutorado, produção acadêmica, concursos públicos e avaliações permanentes de desempenho em pesquisa, ensino e extensão.
Grande parte dos indicadores utilizados pelo próprio Ministério da Educação e pela CAPES para avaliar universidades, produção científica, formação de mestres e doutores, internacionalização, patentes e impacto acadêmico, depende diretamente do trabalho desenvolvido pelos docentes e pesquisadores.
Os técnicos-administrativos, por sua vez, exercem funções fundamentais para que essas atividades ocorram, mas seu objetivo organizacional é oferecer suporte à atividade principal. Sob a perspectiva econômica, essa diferença funcional costuma justificar estruturas de carreira distintas, pois cada grupo enfrenta responsabilidades, requisitos de formação e mecanismos de avaliação específicos.
Autores como Max Weber e William Niskanen mostram que burocracias tendem naturalmente a buscar maior autonomia, orçamento e influência política. Quando políticas remuneratórias aproximam significativamente carreiras com funções distintas, pode surgir a percepção de que a estrutura administrativa passa a adquirir um peso institucional semelhante ao da estrutura responsável pela produção acadêmica.
Essa interpretação leva à seguinte preocupação, se os incentivos relativos deixam de refletir as diferenças entre as funções organizacionais, a universidade pode enfrentar dificuldades para atrair e reter profissionais altamente qualificados para atividades de ensino e pesquisa.
Toda organização eficiente procura alinhar incentivos à sua missão. No caso das universidades, a missão institucional é produzir conhecimento, formar profissionais e desenvolver pesquisa.
Se a política remuneratória reduzir excessivamente os diferenciais associados à qualificação acadêmica, alguns analistas argumentam que isso pode diminuir o retorno esperado do investimento individual em formação científica, especialmente em um contexto em que a obtenção de doutorado exige muitos anos de dedicação.
Por outro lado, defensores da reestruturação sustentam que a valorização dos técnicos melhora a gestão universitária, reduz a rotatividade, fortalece a capacidade administrativa e beneficia indiretamente as atividades de ensino e pesquisa. Essa também é uma posição presente no debate público e deve ser considerada.
A discussão não deve ser reduzida à ideia de que uma carreira é “mais importante” do que outra. A questão central é saber se a estrutura de incentivos adotada está alinhada com a missão da organização.
Sob a ótica da teoria das organizações, pode-se defender que atividades-meio e atividades-fim possuem funções complementares, mas não idênticas. Dessa perspectiva, políticas que aproximem demasiadamente seus incentivos relativos podem ser vistas como potencialmente capazes de alterar prioridades institucionais e afetar a eficiência organizacional.
Assim, a avaliação dos efeitos dessa política depende de evidências empíricas sobre produtividade acadêmica, qualidade da gestão, retenção de talentos e resultados obtidos pelas universidades após a implementação das mudanças.

