A Fábrica que Fabrica o Mundo, por Cid Gadelha

A Superindústria do  Imaginário, de Eugênio Bucci

 

Eugênio Bucci disseca a máquina que governa não apenas o que vemos, mas o que  somos capazes de desejar 

Há livros que, antes de terminarmos de lê-los, já nos leram por inteiro. Você abre as páginas  com a tranquila disposição de quem examina um objeto e, em algum momento que não  consegue precisar, percebe que é o objeto sendo examinado. A Superindústria do  Imaginário, de Eugênio Bucci, opera exatamente dessa maneira: vai revelando, com  método e sem piedade, algo que sempre esteve diante dos nossos olhos e que, por  razões que a própria obra se encarrega de iluminar, persistíamos em não ver. A  revelação central pode ser enunciada com deceptiva simplicidade: vivemos dentro de  uma indústria, e essa indústria não produz geladeiras, automóveis nem commodities  agrícolas. Ela produz o próprio real. 

Bucci — professor, ensaísta e um dos mais rigorosos intérpretes da mídia brasileira — não chega a essa tese por atalhos. Pelo contrário, e aí reside um dos primeiros méritos  do livro, ele constrói seu argumento com a paciência de quem sabe estar lidando com  um fenômeno que a maioria das pessoas experimenta cotidianamente sem jamais  conseguir nomear. A superindústria do imaginário não é uma conspiração, não é um  comitê reunido às escondidas para decidir o que as massas vão sonhar. É uma estrutura.  E estruturas são, por definição, mais perturbadoras do que vilões, porque não têm rosto  para odiar nem endereço para protestar. 

A tradição intelectual da qual Bucci se nutre é densa e, em outras mãos, poderia resultar  num texto hermético, reservado exclusivamente a iniciados. Debord, Adorno, Benjamin,  Marx — o autor transita por esse território exigente sem jamais perder de vista o leitor  comum. É uma qualidade rara, e é preciso sublinhá-la. Bucci tem o dom de tornar  complexo o que é genuinamente complexo sem torná-lo obscuro, e de tornar acessível  o que parece simples sem trair a densidade que o sustenta por baixo. Esse equilíbrio é a  marca de um pensador que domina seu objeto com profundidade real, em vez de  meramente desfilar erudição como ornamento. 

O conceito central do livro merece atenção detida. A “superindústria” a que Bucci se  refere não é apenas a indústria cultural no sentido frankfurtiano clássico — aquela  fábrica de entretenimento pasteurizado que Adorno e Horkheimer denunciaram nos  anos 1940. É algo simultaneamente mais abrangente e mais radical. Trata-se da  indústria que produz o imaginário coletivo como condição de existência do próprio  capitalismo contemporâneo. Sem imagens, sem narrativas, sem a circulação incessante  de símbolos e afetos manufaturados, o capitalismo financeiro não teria como se  reproduzir. O imaginário não é o ornamento do sistema — é o seu combustível, o seu  motor oculto.

O que isso significa, na prática? Significa que quando você assiste a uma série no  streaming, quando rola o feed das redes sociais, quando absorve uma campanha  publicitária sofisticada ou acompanha a cobertura televisionada de um evento político,  você não está apenas se entretendo ou se informando. Você está sendo produzido. Suas  preferências, seus medos, seus padrões de desejo e de repulsa estão sendo calibrados  por uma maquinaria que opera com uma eficiência que nenhum aparelho de Estado  jamais alcançou — justamente porque não parece um aparelho de Estado. Parece  liberdade. Parece escolha. Parece, até, identidade. 

É nesse ponto que o argumento de Bucci adquire sua força crítica mais aguda. A  superindústria do imaginário é totalizante não porque proíbe, mas porque seduz. Ela  não censura o que você pode ver — ela formata o que você quer ver. Essa distinção não  é retórica: ela define a diferença entre uma ditadura de propaganda, que impõe pelo  medo, e um sistema de dominação muito mais sofisticado, que dispensa o cassetete  porque já colonizou o desejo antes que ele chegue a se formular como tal. 

O leitor brasileiro encontrará nesse diagnóstico uma ressonância especialmente viva.  Vivemos num país em que a televisão aberta governou durante décadas o imaginário  coletivo com uma completude que raramente encontra paralelo em outras democracias  do mundo. A Rede Globo, por exemplo, não era apenas uma emissora — era, para usar  uma formulação que Bucci certamente aprovaria, uma máquina de produção de  brasilidade, de norma estética, de horizonte do possível e do impossível. Que essa  centralidade tenha se fragmentado com a ascensão das plataformas digitais não  significa que a superindústria tenha se enfraquecido. Significa que ela se multiplicou,  tornou-se mais capilar, mais personalizada e, portanto, ainda mais eficiente na sua  tarefa de preencher todo o espaço disponível para o sonho. 

Seria ingênuo, porém, ler o livro apenas como um manifesto apocalíptico contra as telas.  Bucci é um pensador honesto demais para cair nessa armadilha fácil. Ele sabe — e deixa isso suficientemente claro — que a crítica ao imaginário industrializado não pode ser a  nostalgia de um imaginário pré-industrial que, em sua maior parte, jamais existiu da  forma idílica que os saudosistas supõem. O problema não é a imagem em si, esse recurso  tão antigo quanto a espécie humana. O problema é a imagem quando divorciada de  qualquer ancoragem com a experiência vivida, quando reduzida a mercadoria pura e  quando convertida no único medium pelo qual nos tornamos inteligíveis uns aos outros  — e a nós mesmos. 

A prosa de Bucci tem uma qualidade que é ao mesmo tempo estilística e ética: ela não  condescende. O autor escreve para um leitor que pressupõe capaz de acompanhá-lo, e  isso imprime ao texto uma tensão produtiva, uma sensação de que há sempre mais a  desdobrar, mais camadas a revelar sob a camada anterior. Em certos momentos, essa  densidade pode exigir do leitor uma pausa para respirar, para relançar o argumento  antes de avançar. Mas essas pausas são, elas mesmas, parte da experiência intelectual  que o livro propõe e reivindica. Não se lê Bucci enquanto se faz outra coisa. Ele exige  presença — o que já é, por si só, um gesto de resistência contra o mundo que descreve. 

Se há uma ressalva a formular, ela é menos uma crítica ao livro do que uma questão que  ele levanta sem, ao meu ver, esgotar completamente: onde está a saída? Ou, mais 

precisamente, existe saída? Bucci é suficientemente rigoroso para não oferecer uma  solução fácil — e está absolutamente certo em recusar esse conforto, porque soluções  fáceis para problemas estruturais são elas próprias um produto típico da superindústria  que ele critica. Mas o leitor fecha o livro com a sensação de que a crítica, por mais precisa  e necessária que seja, ainda carece de uma dimensão propositiva à altura do  diagnóstico. Talvez essa seja a tarefa de um livro futuro. Ou talvez seja, de modo  deliberado e provocador, a tarefa que o autor reserva para o leitor. 

De todo modo, o que A Superindústria do Imaginário realiza já é considerável: ele nos  oferece linguagem para nomear algo que sentíamos e não conseguíamos articular. Dar  linguagem a um fenômeno é o primeiro passo — talvez o único passo realmente decisivo  — para não ser por ele inteiramente devorado. Nesse sentido, o livro é paradoxalmente  um ato de resistência dentro da própria cultura que analisa: ele usa a palavra — esse  instrumento ancestral e teimoso, refratário à velocidade das imagens — para interrogar  o império do espetáculo. 

Em tempos em que o pensamento crítico é crescentemente tratado como produto de  nicho, como item de curadoria para iniciados, um livro como este representa algo mais  do que uma contribuição acadêmica ou jornalística. Representa a aposta — audaciosa,  quase impudente na sua serenidade — de que ainda vale a pena pensar, de que ainda é  possível olhar para a máquina sem ser por ela inteiramente engolido. Eugênio Bucci faz  essa aposta com inteligência, com elegância de estilo e com a coragem discreta de quem  sabe que as melhores perguntas são sempre, inevitavelmente, as mais perigosas.

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