Tempo, tempo, tempo…
Senhor digno e divino.
Ensina-me a bater à porta sem medo, sem culpa.
Ensina-me a descer sem arrastar ninguém junto. A morrer inteiro, mesmo quando o corpo já não mais cabe em si.
Existe uma pergunta que atravessa toda a existência humana e costuma aparecer apenas quando já estamos diante do abismo: se fomos livres para escolher quase tudo durante a vida, por que deixamos de ser livres justamente diante da morte?
Passamos décadas tomando decisões. Escolhemos caminhos, profissões, amores, crenças, cidades, amigos e desafetos. Acertamos algumas vezes. Erramos muitas outras. Construímos nossa identidade sobre a soma dessas escolhas. A trajetória de cada indivíduo é uma sequência de decisões positivas e negativas que moldam aquilo em que ele se torna.
Por isso sempre me pareceu estranho que a autonomia, tão celebrada durante a vida, encontre um limite absoluto justamente no instante em que o indivíduo se vê diante da própria finitude. Durante todo o percurso, escolhemos. Diante do último horizonte, entretanto, a escolha passa a pertencer aos outros.
Talvez a questão não seja a morte. Talvez a questão seja o controle sobre ela.
A morte digna é arbítrio simples, mas corajoso. É dizer “chega” sem culpa, agradecer e despedir-se sem deixar feridas, reconhecer que o corpo tem limite e que insistir além dele, muitas vezes, é mais egoísmo meu do que amor pelo outro. Amar, aqui, é soltar a mão na hora certa.
O debate sobre a morte digna costuma ser sequestrado por paixões religiosas, disputas jurídicas e moralismos que raramente enfrentam o problema central. O verdadeiro conflito está na autonomia humana diante do sofrimento irreversível. Está no direito de decidir quando a existência deixou de ser vida para se transformar apenas em permanência biológica.
Foi pensando nessa fronteira entre decisão e destino que sempre me ocorreu uma ideia estranha, mas sou um esquisito. Para mim, Ayrton Senna ainda não morreu.
Não porque exista alguma dimensão mística capaz de preservá-lo, mas porque sua morte ocorreu em uma fração invisível do tempo, principalmente para ele que quebrava os tempos impossíveis e sincronizava a finitude nas voltas e voltas.
Entre o impacto e a explosão, entre o antes e o depois, existe um intervalo impossível de medir. Uma ruptura tão rápida que talvez a consciência jamais tenha encontrado o ponto exato da batida.
Essa percepção me conduz a outra reflexão. Existe uma diferença profunda entre existir e resistir. Existir é participar da vida. Resistir é apenas permanecer nela.
Enquanto existir envolve escolha, desejo e movimento, resistir pode significar apenas a manutenção mecânica de um organismo. Em determinadas circunstâncias, a vida deixa de ser experiência para se transformar em permanência compulsória.
É nesse ponto que a síndrome do enclausuramento se impõe como uma das imagens mais perturbadoras da condição humana. Sinto arrepios, já em nem imaginar tal fatalidade, prefiro não pensar, mas me vejo na necessidade de ver o ser só, tão iminente.
Imagine permanecer consciente, compreender tudo ao redor, recordar, amar, sofrer, mas perder quase toda capacidade de comunicação e movimento. Imagine habitar uma prisão construída pelo próprio corpo. Não uma prisão de paredes, mas uma cela biológica da qual não existe fuga.
A mente continua desperta. O mundo continua acontecendo. Mas a liberdade desaparece. Diante dessa possibilidade, surge uma pergunta incômoda: até onde a sociedade pode impor a continuidade da existência contra a vontade daquele que a vive?
Não se trata de defender a morte como solução para os problemas humanos. Trata-se de reconhecer que existem situações extremas nas quais o sofrimento deixa de ser transitório e passa a constituir a própria condição de existência.
A legislação procura responder a essa questão por meio de normas. A religião tenta respondê-la por meio da fé. Ambas oferecem argumentos legítimos. Contudo, nenhuma delas experimenta a dor concreta do indivíduo que se encontra aprisionado dentro de si mesmo.
Existe também outra dimensão pouco discutida.
A dependência absoluta não afeta apenas quem sofre. Ela alcança aqueles que permanecem ao redor. O cuidado é uma demonstração sublime de amor, mas ninguém deveria fingir que ele é simples. O passar dos anos transforma dedicação em rotina, rotina em obrigação e obrigação em exaustão. Não por maldade. Por condição humana.
O afeto não desaparece de uma vez. Ele se desgasta em pequenas frações invisíveis. Surge o cansaço. Surge o esquecimento. Surge a culpa por estar cansado. Surge a vergonha de admitir esse cansaço.
E então duas tragédias passam a coexistir. De um lado, aquele que já não deseja permanecer. Do outro, aqueles que precisam mantê-lo vivo.
A discussão sobre eutanásia e suicídio assistido nasce exatamente nesse território desconfortável, onde não existem respostas fáceis.
Muitos enxergam esses procedimentos apenas como interrupção da vida. Outros os percebem como expressão final da autonomia individual. Entre esses extremos existe um campo vasto de dilemas morais, afetivos e filosóficos que não podem ser reduzidos a slogans religiosos nem a argumentos jurídicos simplificados.
A questão fundamental talvez seja outra.
O QUE CONSTITUI A DIGNIDADE HUMANA?
Será a simples manutenção dos sinais vitais? Será a capacidade de escolher? Será a consciência? Será a liberdade? Ou será a possibilidade de determinar o próprio destino quando todas as demais possibilidades já desapareceram?
Nenhuma legislação conseguiu responder definitivamente a essas perguntas. Nenhuma religião produziu consenso universal. Quais os termos filosóficos que encerraram o debate.
Talvez porque a resposta não esteja em conceitos abstratos, mas na singularidade de cada existência. Cada ser humano conhece seus limites de dor, seus medos, suas crenças e suas razões para continuar ou interromper uma caminhada. O que para um representa esperança, para outro pode representar apenas prolongamento do sofrimento.
Por isso a morte digna não deveria ser discutida apenas como um tema médico ou jurídico.
Ela é, antes de tudo, uma questão de humanidade.
Humanidade para compreender que algumas pessoas desejam lutar até o último instante.
Humanidade para compreender que outras talvez não desejem.
Humanidade para aceitar que o livre-arbítrio não perde valor apenas porque nos aproximamos do fim.
No fundo, a pergunta permanece a mesma desde sempre.
SER OU NÃO SER.
Não como uma formulação literária distante, mas como uma decisão íntima que surge quando o indivíduo se vê diante da fronteira definitiva entre permanecer e partir. Talvez a dignidade humana não esteja apenas no direito de viver. Talvez ela também resida na possibilidade de decidir quando a existência deixou de ser vida e passou a ser apenas permanência.
Porque ninguém deseja tornar-se um peso. Ninguém deseja transformar o amor dos outros em obrigação. O que pesa e penso é que não desejo habitar eternamente uma prisão construída pelo próprio corpo, e do meu eu, interior, tão inexpressivo.
Assim, peço para descer sozinho, sem ídolos para me carregar.
Olho para o que fui e percebo que impor desejo ao outro seria repetir a vaidade que a vida inteira tentei evitar. A finitude não pede teatro nem súplica. Pede silêncio, presença, cuidado. Pede que eu respeite meu caminho sem transformar o próximo em guardião da minha dor.
E quando toda liberdade desaparece, resta uma última questão.
Por isso escrevo. Não para ensinar como morrer, mas para aprender, comigo mesmo, como viver até o último instante sem perder a lucidez, e a introspecção, porque só o afeto educa a despedida, e transforma o medo em tempo sereno para atravessar sozinha a última queda.
AO PROF. CHICO VIANA
