Fascismo sem Farda: uma leitura de Umberto Eco

Umberto Eco

Há livros que envelhecem mal e há livros que, com o passar dos anos, adquirem uma atualidade que seus próprios autores talvez não tenham previsto — e que, francamente, nenhum leitor de boa-fé gostaria de constatar.

O Fascismo Eterno, de Umberto Eco, pertence a esta segunda e inquietante categoria. Publicado originalmente em 1995 como ensaio — Ur-Fascismo, em italiano —, o texto nasceu de uma conferência que Eco proferiu na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, por ocasião do cinquentenário do fim da Segunda Guerra Mundial. Três décadas depois, lê-lo é uma experiência que oscila entre o deslumbramento intelectual e uma espécie de mal-estar difuso, aquela sensação que os alemães chamam de Unbehagen e que, traduzida à força, seria algo como um desconforto que não se sabe exatamente onde dói.

Eco não era um político, nem um panfletário. Era um semiólogo de formação, romancista de vocação e intelectual público por temperamento — uma combinação rara que lhe permitia transitar com igual desenvoltura entre a Idade Média e a cultura de massas, entre Tomás de Aquino e James Bond. É precisamente essa bagagem que confere ao ensaio uma densidade que vai muito além do que o título poderia sugerir a um leitor apressado. Aqui não se trata de mais um libelo antifascista redigido no calor da hora. Trata-se de uma arqueologia conceitual, de uma tentativa rigorosa — e, ao mesmo tempo, elegantemente acessível — de identificar o fascismo pela sua estrutura profunda, por aquilo que persiste quando a farda já foi pendurada no armário e a retórica foi devidamente arquivada nos livros de história.

O ponto de partida é autobiográfico, e é ali que Eco revela sua habilidade narrativa de romancista a serviço do rigor do ensaísta. Ele começa contando que cresceu sob o regime de Mussolini e que, portanto, o fascismo não é para ele uma abstração acadêmica, mas uma memória sensorial: o cheiro, a língua, os gestos. Dessa experiência visceral, Eco extrai uma primeira e fundamental advertência: o fascismo histórico foi uma bagunça ideológica. Ao contrário do nazismo, que possuía uma coerência sinistra baseada numa visão de mundo racialmente ordenada, o fascismo italiano era um amálgama contraditório de monarquismo e republicanismo, de culto pagão e catolicismo, de modernismo estético e nostalgia ruralista. Mussolini não tinha uma filosofia — tinha uma retórica, e essa retórica estava a serviço do poder, não de qualquer coerência doutrinária.

Mas é justamente aí que reside o argumento central e mais perturbador do livro: a incoerência interna não é um defeito do fascismo. É sua característica definitória. É o que o torna tão escorregadio, tão adaptável, tão capaz de ressurgir sob novas roupagens sem que seus adeptos — ou suas vítimas — o reconheçam imediatamente. Eco propõe então o conceito de Ur-Fascismo, ou fascismo eterno, como um conjunto de traços típicos que podem se combinar de maneiras diferentes, sem que todos estejam necessariamente presentes ao mesmo tempo. Basta um, em certas condições, para que o embrião esteja ali.

Os quatorze traços que Eco elenca são analisados com uma lucidez que impressiona tanto pela economia do estilo quanto pela profundidade das implicações. O culto à tradição como inimiga do pensamento crítico. O irracionalismo que desconfia da modernidade e celebra a ação pela ação. O apelo à frustração das classes médias como combustível político. A obsessão com o complô. O desprezo pelo fraco e a exaltação do herói. A fabricação de um inimigo ao mesmo tempo onipotente e desprezível. A vida concebida como guerra permanente. O machismo estrutural. A demagogia que apela ao “povo” como entidade mística enquanto mina as instituições que deveriam representá-lo.

Lido em 1995, o ensaio soava como um exercício de memória coletiva. Lido hoje, soa como um diagnóstico clínico. E aqui o leitor brasileiro tem razões particulares para se demorar em cada parágrafo com uma atenção que vai além do interesse intelectual genérico. Não porque o Brasil seja fascista — simplificações desse calibre seriam indecorosas —, mas porque vários dos traços descritos por Eco têm circulado em nossa vida pública com uma familiaridade que não deveria ser confortável. A apologia da ação sem reflexão, o culto ao chefe como encarnação da vontade popular, a hostilidade ao pensamento universitário e à cultura letrada, a retórica do inimigo interno que conspira contra os “verdadeiros brasileiros”: tudo isso encontra ressonância nos quatorze pontos do ensaio com uma precisão que desautoriza qualquer leitura meramente histórica do texto.

É claro que Eco não está falando apenas do Brasil, nem de nenhum país em particular. Está falando de uma pulsão que ele considera inerente às sociedades democráticas de massas — uma tentação permanente que se alimenta do medo, da humilhação e do ressentimento. Sua análise não é fatalista, mas tampouco é ingenuamente otimista. O fascismo eterno pode ser contido, mas não eliminado, porque suas raízes não são ideológicas no sentido estrito: são psicológicas e sociais. Enquanto houver identidades ameaçadas, privilégios em erosão e líderes dispostos a explorar a ansiedade coletiva, o Ur-Fascismo terá seu húmus.

O maior mérito do livro, no entanto, está num ponto que raramente é suficientemente enfatizado: “Eco nos ensina a olhar para o fascismo não como uma aberração histórica circunscrita à época do entre-guerras europeu, mas como um fenômeno que pode ressurgir, como uma possibilidade permanente inscrita na gramática da política moderna. Isso não é paranoia — é vigilância. E há uma diferença enorme entre as duas. A paranoia vê o inimigo em toda parte; a vigilância aprende a reconhecer seus sinais antes que ele tenha adquirido força suficiente para que a resistência se torne muito mais custosa.

A edição brasileira mais recente traz o ensaio em formato breve, quase de bolso — o que é, de certo modo, uma virtude: o texto se lê em uma tarde, mas se pensa por semanas. Eco escrevia como quem conversa, com aquela aparente leveza que é, na verdade, o resultado de décadas de sedimentação intelectual. Há algo de Montaigne nisso, essa capacidade de tratar assuntos graves com uma prosa que nunca perde a elegância nem cede à solenidade gratuita.

Termina-se a leitura com a estranha sensação de ter sido simultaneamente instruído e inquietado — que é, talvez, o único efeito que um ensaio verdadeiramente honesto pode e deve produzir. Umberto Eco não nos oferece consolo. Oferece-nos algo mais raro e mais valioso: clareza. E clareza, numa época em que a obscuridade virou método e o ruído virou argumento, é o mais subversivo dos gestos intelectuais.

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