Algumas nações carregam, entranhado em sua memória mais profunda, o arquétipo do traidor que se acredita patriota — o homem que, convencido de sua própria grandiosidade ou movido por interesses materiais rasteiros, entrega a soberania de seu povo a uma potência estrangeira e ainda tem a desfaçatez de apresentar esse gesto como um ato de amor à pátria. No Brasil, esse arquétipo não é raridade histórica nem desvio ocasional do percurso civilizatório. É recorrência. É padrão. É, em certos estratos das elites nacionais, algo que se aproxima perturbadoramente de uma vocação cultivada com esmero através dos séculos — uma segunda natureza tão bem incorporada que seus praticantes já não conseguem distingui-la de virtude.
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Desde os tempos coloniais, uma fração das classes dirigentes brasileiras cultivou com o estrangeiro poderoso uma relação que jamais ousou chamar pelo nome que lhe corresponde. Chamou-a de modernização, de inserção civilizada no concerto das nações, de alinhamento estratégico, de parceria natural entre povos afins. Os nomes variaram com as épocas e com os suseranos disponíveis. A estrutura permaneceu intacta com a fidelidade das coisas que nunca encontraram resistência suficiente para se transformar.
A anglofilia das elites imperiais foi a primeira grande manifestação desse impulso. Os barões do café e os senhores de engenho olhavam para Londres com a devoção reservada aos oráculos — importavam não apenas manufaturas e capitais, mas modos de vestir, de pensar, de governar e, sobretudo, de se legitimar. O Brasil real, mestiço, contraditório e prodigioso em sua complexidade, era um problema a ser administrado com distância. A Inglaterra era a solução a ser admirada sem reservas. Que essa admiração custasse décadas de dependência financeira, tratados comerciais leoninos e inserção estruturalmente subalterna na economia mundial era detalhe que o encantamento anglófilo preferia não contabilizar.
A República não rompeu com esse padrão. Apenas trocou o endereço do suserano com a eficiência de quem muda de mobília sem questionar a arquitetura da casa. Os positivistas de 1889 tinham os olhos voltados para Washington com uma intensidade que beirava a devoção religiosa. No século XX, o padrão se complexificou sem se alterar no essencial. O golpe de 1964 não teria sido possível sem a chancela americana, sem o reconhecimento antecipado do governo que ainda não existia, sem os navios da Operação Brother Sam posicionados ao largo da costa brasileira. Os generais que tomaram o poder precisaram, antes de qualquer outra coisa, do aceno do embaixador Lincoln Gordon. A soberania, naquele abril sombrio, precisou atravessar o Atlântico para ser autorizada antes de ser exercida — e talvez essa seja a imagem mais perfeita, e mais desoladora, do entreguismo que marca certa tradição das elites brasileiras: um golpe de Estado que necessitou de aprovação estrangeira para se sentir legítimo.
Seria tentador tratar tudo isso como história encerrada em seus próprios limites temporais. Seria tentador — e seria também uma ilusão que o presente se encarrega de desfazer com uma crueza que dispensa eufemismos.
O que a família Bolsonaro pratica é a versão mais acabada, mais exibicionista e mais despudorada dessa tradição secular de vassalagem. Com uma diferença que agrava o fenômeno: os entreguistas de outras épocas ao menos tinham o pudor de disfarçar. Os atuais exibem a subordinação como título de nobreza.
No final de maio, o senador Flávio Bolsonaro percorreu o caminho ao Salão Oval da Casa Branca com a desenvoltura de quem confunde acesso com influência e proximidade com poder próprio. A fotografia ao lado de Donald Trump — divulgada com o entusiasmo de quem encontrou no estrangeiro a legitimidade que o próprio país recusa a conceder — custou mais do que qualquer câmera poderia registrar. Segundo o Financial Times, a visita de Flávio à Casa Branca antecedeu diretamente dois golpes comerciais e diplomáticos contra o Brasil: a proposta de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros — que, somadas a uma investigação posterior com base na Seção 301 da legislação comercial americana, podem alcançar 37,5% — e a designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras, medida que abre caminho para intervenções militares norte-americanas em território brasileiro sem necessidade de comunicação prévia ao governo nacional.
O jornal britânico não hesitou em associar os dois anúncios ao que descreveu como “um esforço de lobby por parte de um importante candidato presidencial brasileiro”. A colunista Miriam Leitão, no Globo, foi ainda mais direta: a cronologia dos acontecimentos, escreveu ela, revela uma conexão evidente entre a mobilização da família Bolsonaro junto à Casa Branca e o endurecimento progressivo das medidas americanas contra o Brasil. Não se trata, em sua avaliação, de uma disputa comercial tradicional. Trata-se da politização do comércio exterior como instrumento de pressão política interna — tarifas usadas não para defender interesses econômicos americanos, mas para fragilizar um governo brasileiro às vésperas de uma eleição presidencial.
Confrontado com a repercussão, Flávio Bolsonaro declarou ter pedido a Trump que não tarifasse as empresas brasileiras — posição que surge, como observou Miriam Leitão, depois que os prejuízos já começaram a atingir setores produtivos, exportadores e trabalhadores do país. O presidente Lula, por seu turno, passou a chamar as novas tarifas de “TariFlávio” — neologismo que condensa, com precisão satírica, a avaliação de que a ofensiva comercial americana tem endereço doméstico e nome de família. O Financial Times registrou que o senador foi “colocado na defensiva” pela repercussão das mesmas medidas que, segundo toda evidência disponível, contribuiu ativamente para articular.
Há na cena algo que transcende o escândalo político imediato e revela uma constituição psicológica particular: a incapacidade estrutural de imaginar o Brasil como sujeito de sua própria história, como nação capaz de produzir, a partir de sua própria inteligência e de suas próprias instituições, as soluções para seus próprios dilemas. É um colonialismo tão profundamente interiorizado que já não se reconhece como tal — que se apresenta, com a ironia cortante que a história reserva a certas situações, sob a forma de um nacionalismo exacerbado e ruidoso. Falam em soberania enquanto a negam. Invocam a pátria enquanto a subordinam aos humores de uma potência que os considera, quando os considera, aliados menores numa periferia geopolítica de relevância instrumental e passageira.
Seria injusto, contudo, tratar esse fenômeno como exclusividade de um campo político. O Brasil carrega uma tradição longa e transversal de elites que olharam para fora em busca de tutores. A distância entre a anglofilia dos liberais do Império, o americanismo positivista da República Velha e o trumpismo da extrema direita atual é apenas de endereço e de temperamento retórico. A estrutura mental é a mesma: a convicção de que o Brasil é um projeto incompleto que precisa ser terminado com peças importadas, que sua soberania é ornamento adequado para os discursos de Sete de Setembro e não um princípio a ser praticado nos outros trezentos e sessenta e quatro dias do ano.
O que distingue o momento atual não é a estrutura do fenômeno, mas a exibição sem pudor da subordinação. Em outros tempos, o dependentismo era ao menos envergonhado, dissimulado sob o verniz da modernização. Hoje a vassalagem virou espetáculo. O capachismo virou identidade. A subserviência virou bandeira — hasteada com orgulho, fotografada com entusiasmo e transmitida ao vivo para os fiéis que a aplaudem como ato de coragem.
Este país não precisa de tutores. Não carece de aprovação externa para existir com dignidade, para decidir com autonomia, para errar com soberania e com soberania se corrigir. Precisa de líderes que acreditem nele com a mesma intensidade com que acreditam em si mesmos — que compreendam que a soberania não é retórica de palanque, mas prática cotidiana e intransigente de quem governa para seu povo e não para a plateia estrangeira que aplaude quando é conveniente e abandona quando o interesse muda de endereço.
Porque os grandes impérios não têm amigos permanentes. Têm interesses permanentes, como Palmerston enunciou para a diplomacia britânica com uma franqueza que o tempo apenas confirmou. Os vassalos de cada era descobrem esse princípio invariavelmente tarde demais — quando o suserano vira as costas sem cerimônia, quando o acesso se encerra sem explicação, quando a fotografia no Salão Oval amarela na moldura e o telefone deixa de ser atendido com a mesma solicitude de antes. A cena do pai, em 2019, soltando um tímido e manso “I love you” nos bastidores da Assembleia Geral da ONU ao se deparar com Trump já deveria ter sido suficientemente elucidativa sobre a natureza dessa relação. Não foi. O filho repetiu o gesto: outra encenação, outro salão e um custo ainda mais elevado para o país.
A história é uma senhora de memória longa, julgamento lento e veredicto irreversível. Não tem pressa — pode aguardar gerações inteiras antes de lavrar sua sentença. Mas tampouco tem misericórdia para com aqueles que, tendo diante de si a oportunidade rara da grandeza, escolheram a conveniência, o cálculo miúdo.
