A recente descoberta de uma pegada gigante de dinossauro carnívoro no município de Sousa, no sertão da nossa Paraíba, destacada pela Folha de S.Paulo (edição de hoje, p. B11), não pode ser tratada como um fato regional ou meramente curioso. Trata-se de um patrimônio de valor universal. Não é um santuário brasileiro — é um legado da humanidade.
Com cerca de 60 centímetros de comprimento por 63 de largura, a marca fossilizada revela a passagem de um predador de grande porte há mais de 100 milhões de anos. Mas o que está em jogo vai muito além da dimensão da pegada. O que Sousa guarda, especialmente no Vale dos Dinossauros, é um dos mais ricos registros paleontológicos do planeta, comparável a poucos identificados no mundo.
Falar como paraibano, com a convicção de quem conhece a realidade local, é reconhecer: estamos diante de uma riqueza que ainda não recebe o tratamento à altura de sua grandeza. Falta estrutura, falta vigilância técnica permanente, falta gestão profissional. E sobra risco.
O alerta é direto: o homem é o lobo do homem, no dizer de Thomas Hobbes. Se não houver ação competente e contínua, o próprio ser humano — por descuido, ignorância ou interesse econômico — destruirá aquilo que o tempo preservou por milhões de anos. Pegadas se apagam, rochas se degradam, e com elas desaparecem páginas insubstituíveis da história da Terra.
Não basta celebrar a descoberta. É preciso agir. Preservar Sousa exige políticas públicas firmes, presença de especialistas, fiscalização rigorosa e envolvimento da comunidade. Exige, sobretudo, consciência de que aquele chão não pertence apenas à Paraíba — pertence ao mundo.
Sousa não pode ser lembrada apenas como “terra de dinossauros”. Precisa ser reconhecida como território de responsabilidade global. E responsabilidade, nesse caso, não admite improviso. Exige competência, compromisso e respeito ao tempo — esse mesmo tempo que, pacientemente, guardou até nós as marcas desses gigantes.

