Por que o Brasil ainda aceita que obras públicas essenciais se transformem em monumentos à lentidão, ao improviso e à insegurança? A pergunta se impõe com urgência diante da situação da BR-230, no trecho que liga João Pessoa a Cabedelo, na Paraíba.
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O que deveria ser uma intervenção estruturante, a triplicação ou até quadruplicação de um dos principais corredores urbanos do estado, tornou-se um caso emblemático de como a falta de eficiência, de fiscalização e de compromisso com o interesse público pode comprometer não apenas o desenvolvimento, mas a própria segurança da população.
Não se trata mais de um atraso comum em obras públicas, algo infelizmente banalizado no país. O que se observa é um conjunto de problemas que se acumulam ao longo dos anos: prazos constantemente prorrogados, aditivos contratuais sucessivos, execução questionável e, mais grave, sinais de fragilidade estrutural em pontos críticos da obra.
Há relatos preocupantes sobre ausência de contenção adequada, falhas na execução e riscos potenciais em estruturas como viadutos. Quando uma obra dessa magnitude começa a gerar dúvidas sobre sua própria segurança, ultrapassamos a esfera administrativa e entramos no campo da responsabilidade pública direta. Estamos falando de vidas.
É inadmissível que uma intervenção com esse nível de impacto permaneça envolta em pouca transparência e escassa pressão institucional. Onde estão os órgãos de controle? Onde está a fiscalização técnica independente? Onde está a cobrança firme por resultados concretos?
Mais grave ainda é a percepção, cada vez mais difundida na sociedade, de que parte dessas estruturas de controle acaba sendo influenciada por interesses políticos. Quando a fiscalização perde sua autonomia, perde também sua razão de existir. E quem paga essa conta é, invariavelmente, a população.
O silêncio de muitas lideranças políticas locais diante de um problema dessa dimensão também chama atenção. Obras públicas não podem ser tratadas como ativos eleitorais ou zonas de conveniência política. Elas pertencem à sociedade e devem ser conduzidas com absoluta responsabilidade.
Diante disso, torna-se inevitável ampliar o debate. A situação da BR-230, nesse trecho estratégico da Paraíba, precisa deixar de ser um problema regional e ganhar dimensão nacional. Não por interesse político, mas por necessidade pública.
É preciso que a grande imprensa brasileira, os veículos independentes, os formadores de opinião e a sociedade civil organizada voltem seus olhos para o que está acontecendo. O Brasil precisa discutir como obras dessa natureza chegam a esse estágio, e, principalmente, como impedir que isso continue se repetindo.
Mais do que concluir uma obra, é necessário restabelecer a confiança. Confiança de que os recursos públicos estão sendo bem aplicados. Confiança de que a engenharia executada é segura. Confiança de que os responsáveis serão cobrados.
A BR-230, entre João Pessoa e Cabedelo, não pode se tornar apenas mais um capítulo esquecido da ineficiência brasileira. Ela precisa ser encarada como um ponto de inflexão.
Porque quando uma estrada que deveria ligar destinos passa a simbolizar descaso, o problema deixa de ser local.
E passa a ser nacional.