Costuma-se dizer que o tempo é o senhor da razão. Ele cura feridas, apaga lembranças que precisam ser esquecidas, produz arrependimentos muitas vezes tardios, desperta a racionalidade. Isabella Taviani na sua canção “Recado do tempo”, lançada em 2005, mostra bem isso, quando narra a mudança de sentimentos entre um casal que se separou.
“Com os olhos banhados d’água ele suplicava: fica!/Tarde demais/Ela foi embora”. Em prantos ele, no medo da perda, em desespero, rogava que ela não o deixasse. No entanto, era tarde demais, ela já estava partindo, a decisão estava tomada.
“Mesmo ofertando tudo e não pedindo nada: fica!/Tarde demais/Ela foi embora”. Prometeu tudo o que uma mulher poderia desejar de um homem com quem compartilha uma vida. Nada em troca solicitava. Queria apenas que ela ficasse. Mas ela estava resolvida, não voltaria mais atrás na sua determinação em romper o relacionamento e ir embora.
“Mas o tempo sabe bem o que fazer/Deixar a chuva lavar pra escorrer daquela pele/Todo o lodo e febre”. Entretanto o tempo começava a se encarregar de mudar as coisas. Era como se a chuva limpasse do seu corpo tudo o que pudesse representar de impuro que precisava se livrar. Sarar a febre que esteve dando calor à sua pele e que era necessário fazê-la desaparecer. Iniciava-se o período da cura.
“Mas o tempo sabe bem como curar/A ferida que insiste em sangrar/Mas vai fechar”. Não há ferida que sangre a vida toda. Com o passar do tempo ela cicatriza naturalmente, ainda que insista em provocar dor. Depois nem há mais como lembrar que existiu um ferimento que lhe causou tanto mal.
“E na madrugada fria, ela deixa de ser/Cega e enxerga/Tarde demais/Ele já não a espera”. Recordando os tempos passados, na solidão de uma noite gelada, ela então sente saudades. De repente, tira a venda que a impedia de enxergar que aquele amor, proclamado pelo companheiro quando o abandonou, era verdadeiro. De que adiantava essa sensação de remorso, era tarde demais. Ele cansou de esperar.
“E olhando-se no espelho só resta então o lamento/Meu Deus foi tarde demais/Ele partiu com o tempo”. Agora era a sua vez de chorar. Nas lágrimas o lamento de não ter atendido o seu apelo quando resolveu deixá-lo. O tempo já o tinha afastado definitivamente do seu caminho.
“Pois o tempo soube bem como curar/A ferida que nunca mais vai sangrar/Fechada está”. O passar do tempo produziu o efeito da cura. E a chaga no coração, que um dia maltratou tanto, não mais sangraria, porque já estava fechada.
“E nesse dia então/O mundo pôde perceber/Que foi tarde demais pra ela se arrepender”. Então todos perceberam e principalmente ela, que o arrependimento chegara tarde demais.
• Integra a série de crônicas “PENSANDO ATRAVÉS DA MÚSICA”.