Nessa música de Cazuza, gravada em 1987, os parceiros vivem um romance de formas diferentes. Enquanto um é realmente apaixonado e encara com seriedade o envolvimento, o outro se prende a uma relação mais focada na sexualidade, nos prazeres do contato físico, sem sentimentos.
“O teu amor é uma mentira/Que a minha vaidade quer/E o meu, poesia de cego/Você não pode ver”. O “eu lírico” diz aceitar o relacionamento, mesmo sabendo que não é correspondido na mesma intensidade, por vaidade, por satisfazer o seu ego. Ele sabe que suas demonstrações de carinho e de amor nunca serão observadas pelo parceiro, por puro desinteresse.
“Não pode ver que no meu mundo/Um troço qualquer morreu/Num corte lento e profundo/Entre você e eu”. A pessoa amada não percebe o ferimento profundo que se faz entre eles, onde o personagem que canta a canção sai machucado, num sentimento de desencanto, decepção, desilusão. Não há correspondência de afeto, de interesse, de dedicação.
“O nosso amor a gente inventa/Pra se distrair/E quando acaba a gente pensa/Que ele nunca existiu”. Tem a convicção de que esse amor, da parte do outro, é uma distração de momentos, prazeres da sexualidade, carinhos ocasionais. Então é uma invenção que toma corpo nos instantes em que estão juntos fisicamente. Passado o idílio vivenciado nos encontros, fica a sensação de que nunca existiu.
“Te ver não é mais tão bacana/Quanto a semana passada/Você nem arrumou a cama/Parece que fugiu de casa”. Com o correr do tempo consegue compreender que a magia do início vai desaparecendo, os defeitos vão sendo identificados, as divergências vão se destacando. As atitudes passam a revelar os verdadeiros sentimentos. Isso está demonstrado no fato de sair de sua casa às pressas, sem arrumar a cama como fazia outrora, numa expressa manifestação de que a vontade de estar próximo é unicamente circunstancial.
“Mas ficou tudo fora do lugar/Café sem açúcar, dança sem par/Você podia ao menos me contar/Uma estória romântica”. Ficam explícitos os desacordos, as incompatibilidades, as diferenças. Não há mais conformidade, entendimento, simetria entre os dois. É como “café sem açúcar”, “dança sem par”, algo que perde o sabor, o gosto, a beleza, a cumplicidade. Deseja que, pelo menos, houvesse uma simulação que pudesse fazer acreditar numa estória romântica.
• Integra a série de crônicas “PENSANDO ATRAVÉS DA MÚSICA”.