A paixão pelo futebol costuma unir famílias, amigos e multidões durante a Copa do Mundo. Mas, além da emoção dos gols e da expectativa pelos resultados, grandes competições esportivas também podem provocar impactos na saúde mental, especialmente entre pessoas mais vulneráveis à ansiedade.
Segundo o psiquiatra e professor do curso de Psiquiatria da Afya Educação Médica João Pessoa, Kaike Thiê, o envolvimento emocional dos torcedores vai muito além do entretenimento.
“O futebol está ligado à identidade, ao sentimento de pertencimento e até a memórias afetivas importantes. Quando acompanhamos um jogo decisivo, o cérebro reage como se estivéssemos diante de algo com grande valor emocional”, explica.
De acordo com o especialista, essa conexão ativa áreas cerebrais relacionadas à atenção, expectativa e recompensa, o que ajuda a explicar sintomas comuns durante partidas importantes, como coração acelerado, frio na barriga, tensão muscular e dificuldade para dormir.
Apesar disso, Kaike Thiê reforça que essas reações costumam ser naturais. “Sentir emoção diante de algo que consideramos importante faz parte da experiência humana e não significa necessariamente que exista um transtorno mental”, destaca.
Quando a ansiedade deixa de ser normal?
Embora o nervosismo antes de um jogo decisivo seja esperado, o psiquiatra alerta que é preciso observar quando a ansiedade começa a interferir na rotina.
“A principal diferença está no impacto que isso causa na vida da pessoa. Se ela passa dias sem conseguir se concentrar, apresenta prejuízo no trabalho, nos estudos, no sono ou nas relações pessoais, vale buscar uma avaliação profissional”, afirma o médico.
Segundo ele, a ansiedade é uma emoção fundamental para a sobrevivência humana, mas pode se tornar um problema quando deixa de cumprir sua função adaptativa. “Nem toda ansiedade é doença. O transtorno aparece quando ela perde sua função adaptativa e passa a dominar a vida da pessoa”, explica.
Grandes eventos podem agravar sintomas
Pessoas que já convivem com transtornos de ansiedade, síndrome do pânico ou outras condições relacionadas à saúde mental podem sentir os sintomas se intensificarem durante a Copa.
Entre os principais sinais de alerta estão piora da ansiedade, crises de pânico mais frequentes, insônia persistente, irritabilidade intensa, aumento do consumo de álcool e sensação de perda de controle emocional.
Outro ponto destacado pelo especialista é o crescimento das apostas esportivas durante grandes competições.
“Existe um aumento expressivo da exposição às plataformas de apostas, e isso pode representar um risco para pessoas mais vulneráveis”, alerta. Segundo Kaike Thiê, indivíduos com histórico de ansiedade, impulsividade, dificuldade para controlar comportamentos ou dependência devem ter atenção redobrada.
“Em alguns casos, a recomendação mais segura não é apostar com moderação, mas simplesmente não apostar. Nem toda pessoa consegue transformar uma aposta em entretenimento. Para algumas, ela pode se tornar uma importante fonte de sofrimento”, ressalta o psiquiatra.
Como aproveitar a Copa sem prejudicar a saúde mental
Para acompanhar os jogos de forma saudável, o especialista recomenda manter hábitos que favoreçam o equilíbrio emocional.
Entre as orientações estão preservar uma boa rotina de sono, evitar o excesso de cafeína e álcool, praticar atividade física regularmente e limitar o tempo gasto consumindo notícias e debates esportivos.
“Primeiro, é importante lembrar que o objetivo principal é diversão. O futebol deve ser uma fonte de entretenimento, não de sofrimento”, afirma.
O médico também reforça que nem todos precisam participar de apostas para aproveitar a competição. “Muitas pessoas acreditam que a aposta aumenta a diversão, mas, para quem é mais vulnerável, ela pode aumentar a ansiedade, a frustração e até desencadear comportamentos de risco. Muitas vezes, torcer já é emoção suficiente”, destaca o psiquiatra.
