Na década de quarenta, o samba passou a interessar ao público norte americano com o sucesso da cantora luso-brasileira Carmem Miranda. No mesmo ano em que Ary Barroso compôs “Aquarela do Brasil”, em 1940, Assis Valente escreveu o samba-exaltação “Brasil, pandeiro”. Foi gravado originalmente pelos “Anjos do Inferno”, regravado em 1972 pelos “Novos Baianos”.
“Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor/Eu fui à Penha fui pedi à padroeira para me ajudar/Salve o morro do Vintém, pendura a saia que eu quero ver/Eu quero ver o Tio Sam tocar pandeiro para o mundo sambar”. Foi um tempo em que a cultura musical do Brasil passou a ser consumida pelo público dos Estados Unidos. Daí Assis Valente dizer que havia chegado a hora dessa “gente bronzeada”, nós brasileiros, de pele queimada pelo sol tropical, mostrar o valor de um ritmo eminentemente nacional, o samba. Ele fala da Penha e do morro do Vintém, expressando bem os locais onde nosso povo fazia e dançava a música característica do Brasil. Nesse entusiasmo com que realça nosso talento, chama a atenção do gingado das nossas mulatas ao dançarem o samba, para deslumbramento dos americanos. E arremata que quer ver o “Tio Sam”, os Estados Unidos, divulgando para o mundo o nosso ritmo, na batida do pandeiro.
“O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada/Anda dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato/Vai entrar no cuscuz, acarajé e abará/Na Casa Branca já dançou a batucada com ioiô e iaiá”. O samba encantava os americanos que passaram a querer conhecer mais o nosso ritmo. Como Carmem Miranda fazia enorme sucesso se apresentando por lá vestida de baiana, o compositor aproveitou para promover a culinária da Bahia, numa forma de simbolizar nossa influência no gosto musical do americano. E vai ao exagero de dizer que até na Casa Branca, residência oficial do presidente dos EUA, o samba se fez presente com sua batucada.
“Brasil, esquentai vossos pandeiros/Iluminai os terreiros que nós queremos sambar”. Conclama os brasileiros a darem carga no potencial criativo, quando se refere a produzir o samba em toda a sua cadência contagiante. Chegara o tempo do mundo entrar no ritmo do samba.
“Há quem sambe diferente noutras terras, noutra gente/Num batuque de matar/Batucada reuni vossos valores, pastorinhas e cantores/Expressões que não tem par”. Resolve ironizar com o esforço dos americanos em querer sambar como a gente. Por isso que diz “há quem sambe diferente noutras terras”. Falta neles o balanço peculiar do nosso povo. Então faz convite a todas as expressões do nosso universo musical, que, segundo ele, são ímpares, não tem igual em nenhum outro lugar no mundo, para propagarem esse ritmo genuinamente brasileiro.
• Integra a série de crônicas “PENSANDO ATRAVÉS DA MÚSICA”.