Em 1966 ainda estava muito recente a ditadura militar mas já havia um desencanto com a situação do país. No Festival da MPB de 1966 Chico Buarque concorreu com uma música que trazia nos seus versos mensagens de amor, mas que no fundo já sinalizava um protesto em relação ao sistema vigente. “A Banda” empatou com Disparada, do nosso conterrâneo Geraldo Vandré, em parceria com Theo de Barros. Chico chegou a ameaçar não receber o prêmio como vencedora a sua canção, porque considerava “Disparada” uma música mais completa em letra e melodia.
“Estava a toa na vida o meu amor me chamou/pra ver a banda passar cantando coisas de amor”. Nada mais lírico do que uma banda passar. E o amor chamou num momento em que “estava a toa na vida”, sem preocupações, sem determinação do que fazer, sem estabelecer um projeto de viver, para ver o espetáculo que passava na rua. E quando a banda “toca coisas de amor”, o coração se liberta de pensamentos maus, assume um ar de tranqüilidade, de paz, de alegria.
“A minha gente sofrida despediu-se da dor/pra ver a banda passar cantando coisas de amor”. O desfile da banda faz as pessoas esquecerem dos problemas, “despedem-se da dor”. Chico começa aí a fazer subliminarmente seu protesto. O efeito alienante da banda passando. Quando canta “coisas de amor” ameniza o clima de desesperança que começa a tocar conta do povo brasileiro.
“O homem sério que contava dinheiro parou/o faroleiro que contava vantagem parou/a namorada que contava estrelas parou/pra ver, ouvir, e dar passagem”. A banda passou a ter um efeito de paralisia coletiva, todos paravam, e era isso que a ditadura queria, “ver a banda passar” e se deixar de fazer o que era útil e interessante. Há um sentido figurado do marketing diversionista do governo, que procurava desviar a atenção do povo para os problemas do país. Até quem contava dinheiro, o capitalista, parou. Viu que não adiantava querer ditar as regras do que estava acostumado a fazer para ficar rico. Tinha que se submeter às novas ordens e parar “pra ver a banda passar”. Nem aqueles que viviam contando vantagens, nem os românticos, podiam ficar sem ter que interromper o que faziam para “ver a banda passar”.
“A moça triste que vivia calada, sorriu/a rosa triste que vivia fechada, se abriu/e a meninada toda se assanhou/pra ver a banda passar cantando coisas de amor”. Como se fosse uma hipnose, até “ a moça triste que vivia calada, sorriu”, ela se desencantou, deixou de ser triste, porque a “banda” fez com que ela acordasse para o mundo, mesmo que por efeito de uma influência musical transformadora. Até o que era fechada, a rosa, se abria, nada ficava parado quando “ a banda passava”.
“E a meninada” se movimentou, festejou, vibrou, saiu da letargia. Não por conta de uma alegria espontânea, mas porque a banda fazia eles se integrarem na emoção daquele momento.
“O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou/ que ainda era moço pra sair do terraço e dançou/ e a moça feia debruçou na janela/pensando que a banda tocava pra ela”. Chico traz como personagens dessa paralisia coletiva, o velho que de repente se animava e se incorporava naquele movimento e a “moça feia” que se enganava “pensando que a banda tocava pra ela”. Fazer despertar o quase parado, o velho, e ludibriar “ a moça” que se iludia como se estivesse sendo homenageada. O importante era fazer o mundo parar para “ver a banda passar” e convencer os incrédulos de que o mundo agora era lindo, apesar dos pesares.
“Mas para meu desencanto/o que era doce acabou/ tudo tomou seu lugar/depois que a banda passou”. Quando passa o efeito anestésico da banda passando, quando tudo volta a ser como antes, quando a alegria que ela provocou já não mais existe, a realidade reaparece com todas as suas complicações. O que se imaginava um alento se torna um “desencanto”. Afinal de contas a vida não era um mar de rosas como deixava transparecer a alegria da passagem da banda.
“E cada qual no seu canto/ e em cada canto uma dor/depois da banda passar/cantando coisas de amor”. Recolhe-se ao “canto” da vida real. A dor ressurge, a consciência do que não é bom, se reaviva. A “banda passou” e não conseguiu anular por completo o drama da vida que, de repente, foi obrigado a viver nosso povo. Chico usa “ a banda”, metaforicamente, como a propaganda oficial que procura fazer a população se desligar do que está acontecendo em detrimento da liberdade dos brasileiros, em razão da força do poder opressor de um governo militar que acabara de se instalar.
• Integra a série de crônicas “PENSANDO ATRAVÉS DA MÚSICA”

