Obedecendo a ordem cronológica dos acontecimentos, procurei reconstruir a memória social e política de 1968, tido por todos como um ano mítico, extraordinário do ponto de vista das profundas transformações que provocou quando aquela geração questionou valores e costumes, gritou por liberdade e reagiu com coragem contra o autoritarismo e, particularmente no Brasil, contra a ditadura militar. Meu objetivo, além do esforço em fazer com que aqueles eventos tão importantes não caiam no esquecimento, é também o de colocar a Paraiba nesse contexto. Registros de como essa “onda” inovadora de pensar e de agir repercutiu em nosso Estado.
A literatura existente sobre o tema tem causado polêmicas interpretações sobre o legado que aquele ano deixou para as novas gerações. Alguns procuram minimizar seus efeitos na história universal e brasileira. Outros consideram-no um marco revolucionário no mundo politico e comportamental da sociedade. A realidade é que, queiram ou não, 1968 foi pródigo na produção de novos conceitos, novas formas de fazer política e novos padrões de costumes. É preciso preservar a consciência valorativa da ação revolucionária que caracterizou aquele ano.
Sarkozy, quando candidato à presidência da França em 2007, num discurso conservador, foi radical na crítica aos acontecimentos conhecidos como “maio de 1968” naquele país: “Os herdeiros de maio de 1968 impuseram a idéia de que vale tudo, que não há diferença entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, entre o belo e o feio; tentaram fazer crer que o aluno vale tanto quanto o professor, que a vítima conta menos que o delinquente, que se acabara a autoridade, que não há nenhuma norma, nada está proibido”. Na sua visão foi a celebração da “anarquia”.
No Brasil, onde respeitadas as diferenças geográficas, politicas e sociais, da França e de outros paises que vivenciaram acontecimentos importantes dentro dessa concepção mudancista, questionadora, revolucionária em todos os sentidos, fomos impulsionados por um sentimento de rebeldia, de oposição a um regime de governo que reprimia esse pensamento libertário e nos impunha uma ditadura que submetia ao controle absoluto do governo todos os setores da vida brasileira.
Lucileide Costa Cardoso, doutora em História Social da USP, em seu artigo “Ecos de 1968 – Quarenta anos depois”, escrito em 2008, afirmava: “Pode-se amar ou odiar aquele ano, embora esta não seja a melhor forma de entender os acontecimentos. O que não pode é expulsa-lo da história por idiossincrasia, mesmo porque ele se recusa a sair à força. Não se deve encarar 68 como uma construção idealizada, onde se colocam os sonhos que só foram realizados no plano dos nossos desejos. Mas também não adianta negar-lhe importância e desconhecer a sua teimosa disposição em permanecer”.
Marcelo Ridenti, professor de Sociologia da Unicamp, também em 2008, em seu artigo “1968 na mira”, faz a seguinte observação: “No aspecto politico o que está em jogo hoje no debate sobre 1968 não é tanto a interpretação das suas causas e consequências, a crítica indispensável ao que se passou, mas a luta em novos termos entre os que se acomodaram à nova ordem mundial e aqueles que herdaram o espírito de 1968”.
Zuenir Ventura, autor de dois livros sobre a matéria, coloca: “Ao se comportar como se fosse um ser animado, suspeita-se que 1968 não foi um ano, mas um personagem – inesquecível e que teima em não sair de cena”.
Carlos Guilherme Mota, historiador e professor da USP, declara: “Os legitimos herdeiros de 1968 são todos aqueles que ainda cultivam a inconformidade com a situação de miséria física, econômica, social e mental do Brasil de hoje”.
Portanto, 1968 continuará sendo tema de pesquisas, de interpretações, de críticas, de estudos, proporcionando às gerações que lhe sucederam um legado histórico da maior importância para a compreensão do mundo politico e social da atualidade.
* esse texto finaliza a série COMO A PARAIBA VIVEU O ANO DE 1968 e integrará o livro que será editado pela UEPb e será lançado até o final do ano.

