Dezembro/1968: Dom José Maria sofre censura na Arapuan

 

Dom José Maria Pires, arcebispo da Paraiba, tinha, já há alguns anos, um programa dominical na Rádio Arapuan, onde não só pregava sua mensagem cristã, mas fazia comentários sobre o momento político em que o país vivia, contextualizando-o na sua visão missionária. Todo mundo sabia que os militares não viam com bons olhos a postura do nosso prelado, sempre se posicionando de forma firme e corajosa em defesa dos mais pobres e dos oprimidos. Por isso, era chamado de “bispo vermelho”, a exemplo de Dom Hélder Câmara e dom Antônio Fragoso, expoentes da igreja católica  progressista. Sempre teve atuação destacada em apoio aos movimentos estudantis e às lutas dos trabalhadores rurais.

No mês de novembro a emissora em que o arcebispo fazia seu programa teria sido fechada por algum tempo, numa alegação falsa de que estaria funcionando em desacordo com as exigências técnicas do DENTEL, mas que na verdade, como era sabido, a motivação era unicamente política. A linha editorial da rádio não estava agradando aos que estavam no poder. Na sua reabertura foram impostas condições que passavam pela censura aos comentários de ordem politica.

Na manhã do dia oito de dezembro, como de costume, Dom José Maria chegou ao estúdio para fazer o programa. Foi surpreendido pela informação de que a direção da rádio teria proibido que o mesmo fizesse qualquer manifestação de natureza politica, restringindo sua fala exclusivamente na pregação do Evangelho.

Não se submeteu à censura que estavam lhe impondo e comunicou que a partir daquele momento o programa não iria mais ao ar. E decidiu tornar pública sua insatisfação e narrar em nota divulgada nos jornais da cidade todo o constrangedor acontecimento em que se viu envolvido. Eis o texto de sua nota:
“Como é do conhecimento geral, por mais de dois anos,  tive a oportunidade de utilizar os microfones da popular Rádio Arapuan para anunciar o Evangelho e transmitir pontos fundamentais da doutrina social da Igreja. Quando não podia comparecer pessoalmente, enviava a fita gravada ou solicitava a um dos meus cooperadores para substituir-me.
Todos os meus pronunciamentos foram baseados na Palavra de Deus e na sua interpretação oficial dada pela Igreja, sobretudo através do Concílio, da Encíclicas e de documentos qualificados do Episcopado.
Domingo último,  dia oito, compareci à rádio na hora habitual. Para surpresa minha, A MENSAGEM  E  A VIDA não constava da programação. As explicações dadas eram aceitáveis e foram compreendidas. Ao mesmo tempo, porém, me foi sugerido que no meu programa evitasse tratar de assuntos políticos.
Não desejo que nossas pregações sejam motivo de intranquilidade ou de insegurança para os numerosos amigos que fazem  a  Rádio Arapuan.
Por outro lado, seria trair o Evangelho não denunciar as injustiças que se cometem contra os oprimidos e seria pusilaminidade não apontar os equívocos da hora presente. O que nos interessa não é criticar o governo ou as instituições, mas defender o povo.
E aqui está, a meu ver, o maior equívoco da hora presente: enquanto cristãos leigos e cristãos sacerdotes se preocupam com os problemas do povo e busca soluções, o governo teima em ver subversão em tudo e em todos. É evidente que poderá haver excessos de linguagem e exagerado entusiasmo nas atitudes. São limitações a que estamos sujeitos. Corrija-se o exagero sem fazer calar as vozes que se levantam em defesa dos pobres e sem encarcerar ou expulsar os que procuram identificar-se com o povo.
Diante da alternativa: continuar clamando corajosamente  estas verdades com risco de prejudicar a Arapuan, ou pregar apenas as verdades eternas que não incomodam os poderosos, nem melhoram a sorte dos oprimidos, escolho um terceiro caminho, o de suspender um programa que, segundo informação da própria Rádio, tem noventa e cinco por cento de audiência. Tomo esta resolução deliberadamente, embora com grande pesar.
Quero expressar publicamente meu profundo agradecimento à Rádio Arapuan que me dispensou sempre a melhor acolhida e aos inúmeros ouvintes que me distinguiam com sua benévola e paciente atenção.
Dom José Maria Pires – Arcebispo Diocesano da Paraiba”.

A nota foi publicada nas edições dos jornais do dia treze de dezembro, coincidentemente na data em que o Brasil mergulhava no período mais negro da sua história republicana, quando foi baixado o AI 5, o que equivale dizer que, de qualquer forma, o programa não iria mais ao ar, em razão do conteúdo politico censurado pela ditadura, agora sem máscaras.

• Esse texto faz parte da série COMO A PARAIBA VIVEU O ANO DE 1968
• Comentários e informações adicionais devem ser encaminhados para o email: iurleitao@hotmail.com

 

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