Ernani Sátiro foi um dos mais brilhantes politicos paraibanos. Destacou-se no cenário nacional por sua inteligência e pela forma autêntica com que expressava suas opiniões e as suas convicções politicas. Por ser líder da ARENA na Câmara dos Deputados, nos primeiros anos da ditadura militar, era considerado reacionário, homem de direita. Entretanto todos o respeitavam pela postura digna e ética com que se comportava como politico.
No episódio do processo de cassação de Márcio Moreira Alves, há um fato registrado pela Revista Veja, que define bem a personalidade desse nosso conterrâneo.
Estava afastado da liderança, por motivos de saude, quando estourou a repercussão do discurso do deputado Márcio Moreira Alves, e que deu causa à iniciativa do governo em propor à Cãmara a cassação do seu mandato. Sendo figura destacada do mundo politico nacional e desfrutando da confiança dos militares no poder, mesmo convalescendo em um hospital, era o deputado Ernani Sátiro consultado sobre os acontecimentos e o desenrolar da crise.
Informado de que o presidente da ARENA, senador Daniel Krieger, havia encaminhado carta ao Presidente Costa e Silva manifestando sua discordância do processo contra o deputado Márcio Moreira Alves, Ernani Sátiro, do seu leito de hospital, decidiu telefonar para o General Jaime Portela, Chefe da Casa Militar da Presidência da República, também paraibano, indagando se o mesmo teria tido conhecimento da correspondência do senador Krieger ao Presidente. Recebendo resposta afirmativa, voltou a indagar: “E então?”. O General Portela afirmou: “Acho que ninguém é insubstituivel”. Para surpresa do seu conterrâeno militar, Ernani Sátiro terminou o telefonema declarando: “Olha, Jaime, eu estou inteiramente de acordo com as palavras do alemão”.
A posição assumida por Ernani Sátiro, mesmo ausente da Câmara, foi acompanhada pelo presidente José Bonifácio, defendendo a imunidade parlamentar em termos absolutos.
Preocupado com a reação de influentes lideranças do seu partido, o Presidente Costa e Silva mandou chamar, um a um, todos os deputados da ARENA, e a todos repetia: “Márcio Moreira Alves tem que ser cassado para aplacar a animosidade dos militares”.
Sabendo disso o Senador Daniel Krieger fez o mesmo, chamou todos aqueles que antes haviam estado com o Presidente, e afirmou: “Hoje é Márcio Moreira Alves, amanhã poderá ser um de nós. Não se pode abrir mão das prerrogativas parlamentares. Do contrário estamos fritos”.
O governo percebeu então que não seria tão fácil conseguir seu objetivo e ameaçou endurecer o jogo. Encontrou pela frente políticos que honraram a nossa história, não se curvando ao império da força do autoritarismo.
* esse texto faz parte da série COMO A PARAIBA VIVEU O ANO DE 1968
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