Os estudantes paraibanos presos em São Paulo, no Congresso da UNE, de volta, se engajaram no movimento que organizava uma grande manifestação pública, prevista para ser realizada no dia vinte e três de outubro em João Pessoa.
Enquanto se mobilizavam, promoviam comícios relâmpagos no centro da cidade, reuniões nas faculdades e colégios, sempre objetivando convocar a população para participar do ato público do dia vinte e três.
Como estávamos em véspera de eleições municipais, incluiram nos seus discursos a defesa do voto nulo, acusando o MDB e a ARENA como partidos oportunistas. Na antevéspera da passeata idealizada pelo comitê político estudantil, durante a tarde, em uma dessas manifestações improvisadas, chegaram a queimar uma bandeira norte americana, no Ponto de Cem Réis.
No dia que antecedia o evento, distribuíram um boletim nos principais bairros da capital, buscando esclarecer a opinião pública dos motivos que os levavam a voltar às ruas.
“Porque os estudantes vão às ruas?
1. porque 1.240 colegas foram presos em São Paulo pela ditadura, inclusive vinte e cinco da Paraiba, quando realizavam pacificamente o XXX Congresso da UNE;
2. porque são contra essa ditadura que está no país;
3. porque são contra a dominação dos norte americanos no nosso país;
4. porque os estudantes querem que o povo brasileiro seja livre, tenha direito a um salário justo, possa educar seus filhos e reclamar seus direitos;
5. porque a luta dos estudantes continua enquanto houver um colega preso e esse terror policial instalado em nosso meio.
Os nossos colegas que voltaram de São Paulo estão soltos, mas não estão livres, pois serão instaurados inquérito policial militar e os mesmos poderão ser enquadrados na Lei de Segurança Nacional e condenados de seis meses a cinco anos de prisão.
A luta do estudante só levará a uma vitória, se houver uma união com todo o povo brasileiro, na luta contra a ditadura. O povo na luta derrubará a ditadura”.
O clima, todavia, era de tensão na cidade. Temia-se pela repetição dos confrontos entre estudantes, agora com a participação de populares, e as forças repressoras.
O brigadeiro Firmino Ayres de Araujo, secretário estadual da Segurança Pública, limitou-se a dizer que os estudantes não haviam pedido permissão para realizar o protesto e que a lei, em todos os casos, determina a intervenção a fim de salvaguardar a paz social. O sub-delegado da Polícia Federal, em nosso Estado, Emilio Romano, declarou que os estudantes não podiam fazer as concentrações anunciadas, porque a Lei de Segurança Nacional não permitem. Adiantou que todos os homens da Polícia Federal estariam a postos para manter a ordem pública a qualquer custo.
A advertência das autoridades contribuía, portanto, para esse clima de tensão, mas os estudantes, convictos da solidariedade da população, mantinham sua decisão de realizar uma grande manifestação pública na tarde do dia vinte e três de outubro, uma quarta-feira, cujo início dar-se-ia no adro da Catedral Metropolitana.
• Esse texto faz parte da série COMO A PARAIBA VIVEU O ANO DE 1968
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