Em razão das proximidades das eleições municipais, programadas para o dia quinze de novembro, os acontecimentos políticos eram analisados conforme as preferências partidárias e os interesses eleitorais. Daí a divergência nos discursos do governo e das lideranças estudantis, na sua grande maioria, presentes nos palanques da oposição, no que se referiam à soltura dos estudantes paraibanos presos em São Paulo.
Campina Grande vivia os últimos dias de uma campanha bastante disputada, enquanto que em João Pessoa, que não elegeria seu prefeito (porque era nomeado pelo governador), haveria escolha dos vereadores. O embate do momento permitia que cada agente político procurasse dar a versão mais adequada aos seus respectivos objetivos eleitorais.
Quando voltou de São Paulo em discurso pronunciado no comício do candidato a prefeito de Campina Grande, Plinio Lemos, que recebia o seu apoio, o governador João Agripino manifestava de público a sua grande satisfação em poder retornar ao Estado e dizer que conseguiu o que prometeu, a libertação dos estudantes que integravam a delegação paraibana no Congresso da UNE. “Distorceram a verdade, dizendo que eles não seriam libertados, o que é lamentável. Enquanto faltam com a verdade, não acreditam que existem homens diferentes, que pensam de modo correto e útil. Minha grande preocupação foi cumprir o que prometi em praça pública e consegui isso graças à compreensão do governador Abreu Sodré, que confiou na minha palavra e me entregou os estudantes paraibanos”, declarou o governador no seu pronunciamento. Ressaltou que a sua viagem a São Paulo não teve o propósito de lutar pela liberdade do seu filho, Antônio Fábio Maia, estudante do curso de Física da Universidade Federal de Pernambuco, onde exercia a presidência do Diretório Acadêmico, e que também se encontrava preso por integrar a delegação de estudantes de Pernambuco no Congresso da UNE. O próprio Antônio Fábio me informou que o governador foi surpreendido com a notícia da sua prisão, porque não tinha conhecimento da sua participação no Congresso. Em textos futuros me reportarei especialmente à prisão do filho do governador.
O chefe da Casa Civil do governo do Estado, Edme Tavares, informou à imprensa que “alguns estudantes libertados, que possuem condições financeiras para arcar com as despesas de viagem, já devem estar a caminho da Paraíba. Aos demais o governador ofereceu uma ajuda financeira de cinqüenta e um cruzeiros novos, o suficiente para a compra da passagem e manutenção das despesas durante o percurso de volta”.
O jornal O Norte, em editorial do dia dezessete de outubro, elogiou a iniciativa do governador: “Assim que se espalhou a notícia de que o governador João Agripino havia conseguido a libertação dos estudantes paraibanos, assaltaram-nos lembranças de imbatíveis heróis, antigos e modernos, , sempre em guarda contra as injustiças e em defesa dos fracos e oprimidos, onde quer que eles estejam.
Usou o enorme prestígio e conseguiu o que ninguém esperava, quase em silêncio, acentuando a diferença que existe entre ele e aqueles outros heróis, cujas façanhas eram ou são precedidas de retumbantes preparativos. Praticou um gesto digno da sua posição de homem público nacional.
O governador João Agripino não receberá, provavelmente, nenhuma consagração pública pelo gesto de ontem, mas contribuirá muito mais para o diálogo, sem nada exigir em troca”.
Do outro lado do palanque eleitoral as lideranças estudantis procuravam minimizar a iniciativa do governador e divergiam nos discursos que faziam para convencimento da opinião pública.
Machado Bitencourt, um dos primeiros a retornar à Paraiba, participando de um comício da oposição em Campina Grande, fez questão de declarar que “o governador João Agripino não havia tomado parte na soltura do pessoal da Paraíba, pois isso não passou de um ato de rotina. É possível que tenha se interessado, mas tardiamente, depois que fomos soltos, porque a direção do presídio achou que já não havia expediente legal que justificasse a nossa permanência”.
Rubens Pinto Lyra admitiu que por empenho do governador foram soltos, e, sem qualquer escolta, tomaram o rumo que desejaram, mas desmentiu que o governo do Estado tenha fretado um ônibus especial para vir deixa-los em Recife, como foi anunciado pela Casa Civil.
José Ferreira da Silva, ex-presidente do DCE, afirmou em contatos com a imprensa que “A posição do governador João Agripino ao se apresentar perante a opinião pública paraibana como um “bom democrata”, nada mais representa do que um engodo, uma mistificação de Sua Excelência. O governador quis fazer média em cima da luta eleitoral dos municípios paraibanos. Sua Excelência não fretou ônibus, nem soltou os estudantes paraibanos”.
• Esse texto faz parte da série COMO A PARAIBA VIVEU O ANO DE 1968
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