Inspirado no que definiu a Conferência de Medellin, quando a Igreja Católica da América Latina fazia opção preferencial pelos pobres, contribuindo para a eficácia da ação sócio-transformadora necessária à construção da justiça e da paz em nosso continente, Dom Hélder Câmara lançou no mês de outubro em Propriá, estado de Sergipe, o Movimento “Ação, Justiça e Paz”. Entendia o arcebispo de Olinda e Recife que “o caminho que conduz à Paz é a justiça entre os povos e as pessoas.
Acompanhando o sentimento de Dom Hélder, aqui na Paraiba instalou-se uma seção desse Movimento, inaugurando sua atividade com a publicação de uma nota para conhecimento da opinião pública, no dia dezesseis, oportunidade em que se manifestava contra a prisão dos estudantes do Congresso da UNE, em São Paulo, e a ameaça de cassação do Deputado Márcio Moreira Alves:
“Com fundamento nos princípios de liberdade, justiça e paz social, que inspiraram a sua constituição em âmbito continental, a “Ação, Justiça e Paz” (seção de João Pessoa), vem, de público, manifestar sua preocupação e estranheza ante uma sucessão de fatos políticos, que atingindo comunidades e pessoas, começam a comprometer e abalar as próprias bases da vida social organizada, justificando uma generalizada apreensão de que forças incoercíveis começam a impelir a Nação para os caminhos difíceis da intranqüilidade e do caos.
Coerentes com o empenho manifestado desde nossa origem de lutas pela preservação dos direitos humanos, em cujo respeito identificamos o fundamento maior da realização social, não poderíamos consentir que se desencadeasse, sem protesto, uma série da atentados e ameaças aos direitos humanos, internacionalmente assegurados, e, ainda no Brasil acobertados pelas garantias constitucionais.
Em primeiro lugar, é impossível consentir que se submeta a juventude brasileira, representada pelos estudantes universitários, então reunidos em São Paulo, para discussão comum dos problemas atinentes às reformas estruturais que lhes dizem respeito, ao total cerceamento da liberdade de reunião, de expressão e de locomoção, como se o país estivesse ameaçado, no presente, pelos que se encarregarão de construir o próprio futuro nacional.
A violência que se desencadeia contra os estudantes brasileiros, entre os quais se encontram dezenas de paraibanos, transpõe as fronteiras da classe estudantil, humilha e constrange a família brasileira, que deposita toda a confiança no idealismo e na pureza das convicções dos seus filhos.
A tentativa de cassação do mandato legislativo do deputado Márcio Moreira e de outros, por motivo de pronunciamentos no Congresso Nacional, situa os representantes do povo na mais deprimente condição de silêncio, conivência, omissão e subserviência, definitivamente incompatível com a normalidade democrática.
Nossa palavra, a esta altura, é mais uma advertência aos omissos ou indiferentes que, em qualquer posição, seja no exercício de mandatos obtidos do voto popular ou institucional, ou ainda como simples cidadãos, isentam-se ante a gravidade dos fatos, negando-se a integrar-se numa grande frente coletiva para evitar que o Brasil se precipite na catástrofe.
É este o sentido que pretendemos emprestar à presente denúncia, que servirá, pelo menos, de testemunho de nossa fidelidade às opções democráticas na orientação das reformas brasileiras, condições eficazes do desenvolvimento”.
O manifesto era assinado por Dom José Maria Pires, arcebispo metropolitano da Paraíba; Padre José Loureiro Lopes, diretor do INDES – Instituto do Desenvolvimento Social; Professores Ronald de Queiroz e Rui Gomes Dantas, da UFPb; Padre Wanderley Antônio Rodrigues, vigário substituto de Alagoa Grande; Padre Fernando Montenegro Abath, coordenador da Pastoral; Denise Gadê Negócio e Eimar Fernandes.
• Esse texto faz parte da série COMO A PARAIBA VIVEU O ANO DE 1968
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