Outubro/1968: A queda do Congresso da UNE

 

O XXX Congresso da UNE – União Nacional dos Estudantes, entidade que passou a existir na clandestinidade a partir do golpe militar, tinha tudo para dar errado. A partir do local escolhido para a sua realização. Ibiúna é uma pacata cidadezinha do interior paulista, na época com menos de dez mil habitantes na área urbana. Claro, que a chegada de mais de mil jovens ao local chamaria a atenção e facilmente se compreenderia que algo extraordinário estava acontecendo por ali, despertando a curiosidade dos moradores. O próprio José Dirceu, um dos organizadores do evento, admitiu que foi uma insensatez a escolha do sítio Murundu, que ficava a vinte e dois quilômetros da cidade. Além disso, eram precárias as condições de acomodação dos participantes, sem a mínima infra-estrutura de alimentação, higiene e alojamento. Há mais de trinta dias chovia na região, deixando em lama todo o cenário planejado para a realização do Congresso. O acesso ao sítio era péssimo, obrigando os congressistas, em sua maioria, fazer a pé o percurso da cidade até lá, quatorze quilômetros no asfalto e oito sobre terra (lama).

O “plenário” improvisado, era um buraco cavado num barranco, com degraus que serviam de arquibancadas. As fortes chuvas destruíram parte desses degraus.

Como se não bastassem todas essas condições de inviabilidade do Congresso, cometeram o erro que pode ser apontado como determinante para o acontecimento que se constituiu na maior derrota do movimento estudantil naquele ano de 1968. A “segurança” do Congresso prendeu por dois dias um agricultor, de nome Miguel Goes, que fora ao sítio Murundu cobrar uma dívida. Ao ser libertado fez a denúncia do que estava ocorrendo ao delegado do município. Deixou de ser segredo a realização do Congresso. Logo o DOPS paulista tomou conhecimento de tudo.

No sábado, dia doze de outubro, as sete horas da manhã, o delegado do DOPS, José Paulo Bonchristiano, com uma força policial de mais de duzentos soldados, cercou o sítio. Vinham preparados para enfrentar guerrilheiros, encontraram jovens inexperientes, abatidos pela fome e o frio. Invadiram o acampamento com rajadas de metralhadoras para o alto. Os líderes José Dirceu e Luis Travassos foram os primeiros a serem presos e conduzidos numa Rural Willys para a capital. Rendidos, sem resistência, os estudantes, cerca de mil e duzentos, segundo registro dos historiadores, em fila indiana percorreram, na lama, os oito quilômetros que os separavam da estrada com asfalto, de onde seriam transportados em ônibus e caminhões da polícia até o presídio Tiradentes, em São Paulo. Acontecia então a queda do Congresso da UNE.

O governador Abreu Sodré, de São Paulo, procurou justificar sua decisão: “Agi com energia para reprimir a agitação e a subversão quando determinei, após horas de angústia e apreensão, a prisão de estudantes subversivos que participavam do Congresso da UNE”.

Entre os prisioneiros vinte e cinco paraibanos: Everaldo Nóbrega de Queiroz, presidente do DCE; Aloisio Moniz de Aquino, Eloisio Jerônimo Leite, Rubens Pinto Lyra, José Ferreira da Silva, José de Arimateia Pereira Lima, Haroldo Fernandes dos Santos, Higino Brito Marinho, Jurandir Machado Bittencourt Ferreira, Maria do Socorro Pereira, Celeida Filomena de Castro, Sílvio Roberto Teixeira Barreto, João Roberto Borges de Sousa, Ademir Alves de Mello, Antônio Batista da Silva, Américo de Figueiredo Porto, Vicente Antônio da Silva, Getúlio Bezerra de Castro, Luiz Sérgio Gomes de Mattos, William Capim de Miranda, Maria Nazaré Coelho, Maria do Socorro Morais, Maria de Fátima Mendes da Rocha, Leda Rejane do Amaral e Maria Pires Ramos.

A notícia da prisão dos estudantes e da queda do Congresso fez com que o movimento estudantil no Brasil inteiro se mobilizasse para exigir a soltura dos colegas com a realização de passeatas, comícios relâmpagos, greves, e outras atividades políticas, em todas as capitais do país.

Em João Pessoa, o Conselho Executivo do DCE – Diretório Central dos Estudantes, juntamente com a União Estadual dos Estudantes Paraibanos, em razão da ausência dos seus dirigentes que se encontravam presos, escolheu os estudantes Everaldo Júnior Soares e Gilson Paiva Macedo para dirigirem, em caráter eventual, as lutas políticas, até que os titulares efetivos fosse libertados.

• Esse texto faz parte da série COMO A PARAIBA VIVEU O ANO DE 1968
• Comentários e informações adicionais devem ser encaminhados para o email: iurleitao@hotmail.com

 

 

Mais Posts

Tem certeza de que deseja desbloquear esta publicação?
Desbloquear esquerda : 0
Tem certeza de que deseja cancelar a assinatura?
Controle sua privacidade
Nosso site utiliza cookies para melhorar a navegação. Política de PrivacidadeTermos de Uso