Não vou dizer quando, para não denunciar, mas faz tempo que Agamenon Sarinho empunha a luta da Esquerda, a partir do PC do B, chova ou faça sol. Nesta sexta-feira, depois do lançamento de Chico Pereira, eis que recebo uma contribuição exatamente deste cidadão/intelectual/produto tratando da disputa da UFPB neste momento.
Leiamos o que ele diz:
Slogan Infeliz!
A campanha da oposição na UFPB não tem sido pródiga em vários quesitos. Usa-se artifícios pouco recomendados para a academia: denuncismo udenista, recursos midiáticos, mentiras e economiza-se propostas concretas. Carece de conteúdo algumas candidaturas.
Quero, com todo respeito, comentar o slogan de campanha de uma das chapas. Eis o slogan (que para os comunicólogos deve expressar sinteticamente o conteúdo da campanha): “mudar para qualificar”! Poderíamos ficar, já, por aí, pois o pseudo aforismo não diz coisa alguma. É uma frase tão vazia quanto “Ivo viu a uva”.
Espere aí! pode alguém dizer: mas, em três vocábulos temos dois verbos e verbo indica ação!
Mas que ação, cara pálida? Sem objeto? Por isso vou esticar um pouco o assunto e não encerrar por aqui. Permitam-me, modestamente, comentar estes verbos e a relação entre eles.
Vamos aos verbos: Mudar! Mudar o quê e por quê?
Mudar uma concepção de universidade voltada para a realidade onde está inserida? Que busca pensar a realidade regional e formular e formar visando contribuir para a transformação desta realidade (isto hoje reforçado com a criação do IDEP)?
Mudar uma visão de universidade afinada com a política progressista de expansão do ensino superior – de forma intensiva a extensiva – do governo federal que vem possibilitar o acesso, principalmente dos mais pobres? (Não é melhor então dizer abertamente que é contra o Reuni?)
Mudar a posição corajosa dos Conselhos Superiores que aprovou o Reuni e o sistema de cotas com recorte social, beneficiando exatamente os segmentos mais carentes e descriminados da sociedade?
De que mudança, então se fala? Mudar é comigo mesmo! Mas mudar para fazer avançar as forças sociais e superar a ordem social injusta que reina ainda hoje. E não enxergo nem de longe tais atributos na proposta que carrega o comentado slogan.
Não podemos aceitar mudar para piorar! Prestemos mais atenção aos exemplos, especialmente ao que acontece – sob o patrocínio de tal concepção – no nosso glorioso HU!
E o que se quer afirmar com “qualificar”? Que falta qualidade na produção científica da nossa universidade? Que falta qualidade no ensino que é aqui ministrado? São fraudulentos os conceitos atribuídos aos nossos cursos?
O que dizer, então da quantidade de doutores existentes hoje na UFPB? Da nossa pesquisa? Dos nossos pós-graduandos?
Não se quer na verdade, com objetivos eleitoreiros, desqualificar os avanços que alcançamos? Desqualificar, pois, a UFPB que temos hoje?
Permitam-me, também comentar essa relação entre os verbos: mudar e qualificar. É preciso ‘mudar’ para então ‘qualificar’? Essa proposição está fundamentada em que princípio?
Em minha opinião esta formulação não tem nada de cientifica, antes, serve de anteparo, para uma concepção atrasada de educação que só encontra fundamento nos alfarrábios escolásticos da pedagogia tradicional. É, no fundo, uma concepção elitista que pressupõe a necessidade de alguns iluminados detentores do saber para repassar(controladamente) a outros este saber.
(O que diria Paulo Freire acerca desta visão? E pedagogos como Pedro Demo?)
Podem chamar-me de jurássico, mas entendo que razão tem o velho Engels quando da formulação das leis da dialética(não aquela adotada pelo pensamento escolástico, nem a hegeliana). É da quantidade que se extrai a qualidade. Penso também que mudança e qualificação andam juntas. Há que existir uma relação dialética e solidária entre elas e não a relação de subordinação sugerida no slogan.
Sou defensor do acesso universal à academia. Quero o saber científico para o povo. Como dizia Paulo Freire, a educação forma o sujeito para este transformar(mudar) a sociedade. Não é o contrário! Tenho ojeriza a essas visões elitistas, mesmo mascaradas como a que esconde o slogan acima.
Essa reflexão chama atenção para a seguinte questão: que concepção de ensino esposam o(a)s postulantes a gerir uma instituição do tamanho e da importância da UFPB?
Desculpem aí a ousadia (alguém que sequer tem uma graduação querendo questionar doutores), mas meu objetivo é tentar suscitar discussões das questões de fundo, sair da superficialidade que não condiz com o debate na universidade. Muito menos para quem se propõe dirigir essa universidade.
Ia esquecendo: Afinal, quem precisa mesmo se qualificar?
Agamenon Travassos Sarinho, 21/04/12
Servidor técnico-administrativo e aluno de graduação de letras

