Julho/1968: O ineditismo do teatro paraibano

 

Os estudantes da Faculdade de Filosofia, integrantes do grupo de teatro daquela escola, decidiram montar uma peça, escolhida e interpretada por eles próprios. Compreendiam a importância da arte como instrumento de transformação cultural. Para isso contaram com o apoio integral do Departamento Cultural da Universidade Federal da Paraíba, que tinha como seu diretor o intelectual Juarez da Gama Batista. Era uma experiência inovadora. Um elenco composto exclusivamente por estudantes universitários: Walter Carvalho, Francisco Unhandeijara, Francelino Pereira, Antônio Ferreira, Marcos Navarro, Julio Martins, Vital Farias e José de Arimateia.

A peça escolhida foi A ESTREITA PORTA DO CÉU, de Altimar Pimentel. A sua direção ficou sob a responsabilidade do teatrólogo carioca Rubem Rocha Filho, do Conservatório Nacional de Arte Dramática do Rio de Janeiro, contratado pela UFPb.
A cenografia e o guarda roupa ficaram a cargo de Raul Córdula e a música com o maestro Pedro Santos, recebendo a colaboração de Vital Farias.

Falando sobre o tema da peça o seu autor, Altimar Pimentel, explicava:
“Abordei o problema do fanatismo em Juazeiro nos dias atuais, quando a figura do Padre Cícero permanece com tanta força quanto antigamente. Ainda mais exagerada com a crendice de sua volta, dando um caráter messiânico à religiosidade primitiva do povo nordestino.

Enfocando assim o messianismo a peça faz graves denúncias, expondo as várias formas de sua potencialidade, pelo fanatismo religioso. A visão apresentada de Juazeiro é justamente do exagero desse fanatismo, onde loucos assumem as identidades de personagens bíblicas, como Jesus Cristo, revelando desagregação mental”.

Rubem Rocha Filho ao chegar a João Pessoa para assumir a direção do espetáculo, se entusiasmou com a iniciativa dos estudantes e com o apoio que a universidade ofereceu.
Interessante o seu depoimento sobre o assunto:
“O texto escolhido pelos próprios universitários trata-se de um tipo de “teatro documento”. Juazeiro é captado através de depoimentos de loucos e beatos que lá habitam hoje em dia. O material da peça se aproxima do teatro verdade, sem grandes dramas particulares, nem conflitos individualizados.

Os diretores do sul têm muito o que aprender em contatos como este que estabeleci com os universitários de João Pessoa. Não é um aprendizado unilateral de um diretor mais experiente e um elenco estreante. Mas sim um aprendizado mútuo, pois os artistas paraibanos representam uma outra faceta da arte brasileira, com modelos próprios, numa inspiração regional e cheia de vida.

Não posso deixar de elogiar a autonomia que a UFPb concede aos universitários do grupo de teatro. Vejo que é sincera a vontade de ajudar sem interferir, nem diminuir a independência dos jovens artistas. Esta orientação do departamento cultural, dirigido pelo escritor Juarez da Gama Batista, me parece muito adequada ao momento brasileiro, que precisa provar que confia na sua juventude.

Espero que o Brasil todo possa tomar conhecimento do que se faz de arte na Paraíba. Um verdadeiro mestre como José Américo de Almeida, continua sendo para o Rio o representante máximo da cultura política e literária da Paraíba. Mas é preciso divulgar obras mais recentes, como por exemplo, a ensaística do professor Juarez da Gama Batista, que tem uma dimensão de profundidade e lucidez digna da melhor crítica brasileira. Seu livro sobre Euclides da Cunha é um exemplo de cultura humanística e entrosamento com a realidade brasileira.

Na música popular acredito que Marcos Vinicius será uma surpresa para todo o Brasil, levando a inspiração da juventude paraibana ao nível de consagração popular de um Caetano Veloso”.

A peça alcançou o sucesso esperado e se constituiu marco importante da história da dramaturgia paraibano pelo ineditismo da iniciativa.

• esse texto faz parte da série COMO A PARAÍBA VIVEU O ANO DE 1968.
• Comentários e informações adicionais devem ser encaminhados para o email: iurleitao@hotmail.com

 

 

 

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