As manifestações artísticas sempre foram uma forma de expressão política. Não no sentido da política partidária, mas no seu sentido mais verdadeiro, qual seja o de valorizar conceitos de cidadania e exercer papel fundamental nas transformações sociais. A história universal é pródiga no registro da arte se confundindo com a política.
A criatividade na arte recebe um estímulo especial em períodos considerados revolucionários. A década de sessenta, e especialmente o ano de 1968, assumiu essa característica de tempo das mudanças. Um tempo inquietação, de questionamentos sobre passado, presente e futuro, de rupturas aos padrões conservadores, de contestação aos regimes políticos que oprimiam o povo e cerceavam sua liberdade. Por isso a efervescência cultural da época.
No Brasil vivíamos um cenário social, cultural e político, propício a que a arte assumisse potencial poder ideológico e, por conseqüência, revolucionário. Por isso mesmo a ditadura militar enxergava na cultura o perigo de que através dela se divulgasse idéias consideradas subversivas ou atentatórias aos valores ultramoralistas do regime instalado em 1964.
Instaurou-se, portanto, um rígido controle da produção cultural no país. A censura prévia proibia toda e qualquer manifestação artística que violasse os conceitos políticos e morais do governo. O braço repressor da ditadura alcançou também as artes plásticas. Em 1968 a II Bienal de Salvador foi fechada um dia após a sua inauguração, com vários dos seus quadros confiscados pelos censores por serem considerados subversivos ou imorais.
Na Paraíba, no dia dez de junho, agentes da Polícia Federal interditaram o andar térreo da Reitoria da Universidade Federal da Paraíba, proibindo a exposição de quadros do pintor Raul Córdula por considera-la “ofensiva à moral e o pudor público”.
A medida policialesca da ditadura mereceu protestos da comunidade intelectual paraibana. O escultor Breno Matos suspendeu a exposição que faria naquele mesmo local em solidariedade ao colega.
O artista que teve a sua exposição de quadros proibida comentou:
“Acho muito engraçado numa época em que o erotismo está tão difundido, onde em qualquer revista se vê anúncios de produtos usando o nu, e o que é pior, depois de uma greve contra a censura, vitoriosa na Guanabara, isso aconteça na Paraíba. Meus censores esquecem que no mesmo dia da inauguração da exposição, estava sendo encenada a peça “Dois perdidos numa noite suja”, no teatro do governo.
O que diriam meus censores se entrassem no Museu do Prado e vissem o imortal Goya? E o Louvre, com as obras de Monet, Renoir Rubens, Modigliani, ou mesmo se vissem o teto da Capela Sistina? Sem dúvidas corariam diante da Vênus de Milo.
Meus quadros que falam dos anticoncepcionais são poemas de louvor a um tema da maior importância moral e social e as imagens que apresento cantam a dignidade de um logotipo, abstraindo a figura ao máximo, tirando todo o realismo. Diante da minisaia usada por todas as adolescentes do mundo, meus quadros são inocentes”.
Em razão da repercussão negativa da censura que lhe foi imposta, segundo ele, pelo Conselho Universitário da UFPb, o pintor Raul Córdula foi chamado ao Palácio da Redenção pelo governador João Agripino, onde em audiência relatou sua decepção com o ocorrido. Ato contínuo o governador determinou à Secretaria de Educação do Estado que permitisse a exposição dos quadros proibidos pela Censura Federal em qualquer dos prédios de caráter cultural pertencentes ao governo. A exposição censurada foi então transferida para a galeria de artes José Américo de Almeida, no Teatro Santa Rosa.
• esse texto faz parte da série COMO A PARAÍBA VIVEU O ANO DE 1968
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