Fevereiro/1968: Os excedentes universitários

 

O movimento estudantil de 1968 ganhou uma nova bandeira de luta: a questão dos excedentes universitários. Esses estudantes que tiveram seu acesso à universidade barrado por uma política nacional de ensino injusta, engrossaram os protestos estudantis. A falta de investimentos oficiais na ampliação de vagas no ensino superior produziu a figura dos “excedentes”, aqueles que embora aprovados nos vestibulares não conseguiam matricula nas universidades públicas.

A demanda por vagas nos cursos universitários aumentou consideravelmente no final da década de sessenta. Entre os anos de 1964 e 1968 o número de vestibulandos cresceu 120 %, enquanto as vagas aumentaram apenas 56 %. Parcelas significativas de estudantes experimentavam um sentimento de frustração ao verem impossibilitada a realização do sonho de conquistarem sua formação acadêmico-profissional.

Essa situação alimentava a força política e social dos movimentos estudantis. No Brasil a mobilização dos que eram considerados “excedentes”, com apoio das lideranças universitárias e da sociedade civil, assumia um poder de pressão muito forte. Vestibulandos da Universidade Federal de Alagoas que prestaram provas para o curso de medicina, e não conseguiram classificação que lhes permitisse matrícula, compareceram à aula inaugural portando faixas e cartazes que diziam: “O Brasil é um hospital cheio de doentes sem médicos” e “Condene-me se estudar for crime”.

Na Paraíba o resultado do vestibular concluía pela existência de um considerável número de excedentes nos cursos de medicina e direito. Esses estudantes iniciaram um movimento onde solicitavam do reitor Guilhardo Martins providências no sentido de que fossem aproveitados todos os que tivessem obtido aprovação. Advertiam as autoridades de ensino para a compreensão de que “vestibular é habilitação e não classificação”.

Decidiram então convocar todos os excedentes daquelas escolas superiores da UFPb para reunirem-se em Tambaú, em frente à residência do reitor, às treze horas do dia 07 de fevereiro, com o propósito de ali acamparem até que alguma solução fosse encontrada.

O DCE – Diretório Central dos Estudantes divulgou nota de apoio ao movimento onde afirmava: “Entendemos que a Universidade brasileira funciona com uma estrutura arcaica mantida de há muitos anos e por isso não está acompanhando a evolução social do atual momento, marginalizando, assim, milhares e milhares de brasileiros do acesso ao ensino superior universitário oficial”. Os Diretórios Acadêmicos e a União dos Estudantes Excedentes da Paraíba, distribuíram também nota “protestando contra o tratamento que a Reitoria está dispensando aos estudantes excedentes aprovados no último concurso de habilitação dos cursos de Direito e Medicina da Universidade Federal da Paraíba”.

 

 

O acampamento, inicialmente instalado em frente à residência do reitor, foi transferido para as imediações do prédio da Reitoria, que funcionava onde hoje se localiza a sede da Delegacia Regional do Ministério da Previdência, na avenida Getúlio Vargas, próximo ao Parque Solon de Lucena (Lagoa). Solidários com a posição dos filhos, muitos pais resolveram permanecer também no acampamento.

O local passou a ser palco de discursos inflamados e visitas de personalidades do mundo político e de lideranças da sociedade civil organizada que vinham trazer apoio à luta dos estudantes.

No próximo texto farei registro dos acontecimentos que movimentaram os poucos mais de trinta dias em que a cidade acompanhou a luta dos estudantes pela matrícula nos cursos superiores para os quais lograram aprovação.

• esse texto faz parte da série COMO A PARAIBA VIVEU O ANO DE 1968
• comentários, críticas e informações adicionais sobre o assunto devem ser encaminhados para o email iurleitao@hotmail.com
 

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