Com o tempo, o luto mais próximo

Ainda trabalhava por volta das 22h30 quando o telefone toca e do outro se apresenta o educador Odésio Medeiros repassando uma informação triste: “Soube agora que na madrugada chega o corpo da critica Risoleta Cordula, morta, anteontem, em Paris. Seu sepultamento será nesta terça-feira”, afirmou.

Nem mesmo digeria a informação e, via e-mail, o neo-modernista arquiteto Germano Romero repassa a nota triste de falecimento do maestro Alberto Kaplan, o mais paraibano dos argentinos de todos os tempos inteiramente tomado da musicalidade originada a partir da Universidade Federal da Paraiba.

As duas noticias me levaram à reflexão tanta sobre os primeiros momentos de quando os conheci. Kaplan ainda em meio à proximidade com o então Departamento de Artes e Comunicação da UFPB e suas inquietudes como regente e compositor erudito, e Risoleta, lembro bem, numa das noites do Bar Travessia – lá em Tambaú, de onde saíu para o estrelato Nairon Barreto quando à época pontificavam Cristovam Tadeu e Ruth Avelino fazendo as pessoas riem, antes dos shows e improvisos poéticos de Lucio Lins.

Lembro que desde à época, Risoleta já era amiga de Ana Maria Gondim com quem sempre se encontrava quando estava de férias em João Pessoa, como fazia também com a irrequieta multimidia Regina Von Sohsten.

Encontrei-me com ela já se passaram alguns anos atrás em Paris, onde eu e Carla fomos recepcionados com a fineza intelectual somente possível com quem dispunha de formação tão densa.

Com Kaplan foram momentos diferentes diante de palcos e públicos diferentes sempre que podendo tratando de política na essência filosófica ao lado da figura especial de Márcia Kaplan e sua sinceridade incomodante para quem não se acostuma com as verdades da vida que ela conduz consigo.

Num dos dias de 94, ainda recordo o encontro que fizemos na residência de Márcia e Kaplan no Conjunto Pedro Gondim – ali por perto do ex-DEDE, Cief, acho que era, discutindo com músicos da Orquestra Sinfônica uma forma de construção de parte do Plano de Cultura do então candidato ao governo do Estado, Antonio Marques da Silva Mariz. Dali em diante muitos sonhos se foram e poucos realizados, mas todos crendo no que podiam até porque Mariz gerava essa confiança tamanha.

Pois bem, o tempo passa e no vai-e-vem dos segundos, como se fosse onda a saturar o rochedo relutante, vez por outra nos surpreendemos dolorosamente com essas más noticias produzidas por quem Augusto dos Anjos resistia tanto em aceita-la: a morte.

A Paraiba perde muito com essa gente de valor viajante para nunca mais voltar, que não seja no pensamento dolorido juntado de saudades e a consciência plena de cada um diante de impotência generalizada diante da sanha temida por Augusto.

Eu também temo, todos temem, mesmo que em algum tempo chegará a hora do reencontro sobrenatural longe daqui – tão doloroso quanto real a forma definitiva de descanso eterno deixando para sempre somente o saldo da obra que cada um ofereceu em vida.

Pelo perfil dos dois já encomendei a Maria Julia e Antonio Candido, meus pais in memoriam, que o dia seja de repertório erudito, fino, de alta qualidade, certamente com a participação de Sivuca para recebe-los a caráter.

Que ambos descansem em paz.

Versos Íntimos

Augusto dos Anjos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

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