Minha incursão no mundo místico de Dona Alzira, a mais antiga rezadeira da Nação Torrelandense filhos do bairro da Torre começou primeiro dentro da minha própria família.
Lembro-me, como se fosse hoje, minha luz sem fim de nome Maria Júlia, conduzindo-me até a casa de minha avó paterna, Zeferina, negra de olhar profundo, tanto que entrava dentro de mim sem pedir licença.
Sentada na cadeira de balanço , cercada de santos, fitas e velas, colocava-me em posição de reverência, cabeça baixa, sobre suas longas saias e, com galhos de arruda, danava-se a reproduzir rezas, sem que entendesse bem todo o palavreado santo.
Duda, irmão querido, foi poucos vezes para a reza, mas, eu, logo que sentia o corpo esquentando de febre sinal de algum problema orgânico, corria logo para a casa de vó, sempre sentenciando ao final: meu neto, querido, vc anda com mau olhado.
Não era só, depois vim a entender melhor, mas o tal do olhado sempre me perseguiu, tanto que hoje convivemos numa boa, até porque minha vó, Zeferina, há tempo subiu ao Céu para me proteger de longe, perto de minha mãe Júlia.
Como se vê, foi no bairro da Torre onde cresci na crendice. Também não podia ser diferente com o rumo tomado por meu pai, Antonio Cândido, pelo mundo da umbanda.
Volta e meia me pegava para dar uns banhos de sal grosso, de outros líquidos fedorentos que jogava sobre meu corpo no rio do Cabelo, no rio da praia da Penha ou na beira-mar para afastar o danado do mau olhado.
Pai-de-santo, vim saber depois dessa iluminada condição, era outro guarda da minhalma, felizmente sempre protegida por um bando de gente bacana, sem esquecer de Maria Júlia e Alaíde, irmã do coração, também adepta da ladainha.
Tempos depois, William Travassos e Valdinha Uchoa um par de ouro que ganhei na vida encheram meus ouvidos de exemplos extraordinários de Dona Alzira, mulher dotada de poderes divinos para consolo dos mortais.
Era ela (Dona Alzira), de quem ouvia falar tanto na infância pelas bandas da rua Inácio Evaristo, ali vizinho de Paguar zagueiro famoso do Íbis. Agora, revisitado no coração místico e religioso, passei de algum tempo para cá a ser um dos rezados por ela.
Também não podia ser diferente, se foi ela quem, no mundo místico, me anunciou o maior dos brilhantes, que ela chama de Carlinha e eu, de meu sustento maior da vida, Ana Carla Uchoa de Medeiros, agora Santos.
Nos cem 100 de Dona Alzira é como se tivesse vivido distante a importância dos 100 anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez, aprendendo no bairro da Torre com nossas rezadeiras que aqui a nossa turma pode não ser famosa, mas produz proteção dos deuses.
Na fase presente, só posso agradecer a remanescente divina Dona Alzira por tudo o que fez e ainda fará.