Cineasta Ana Bárbara Ramos apresenta seus filmes em Paris, em sessões no Ciné-Club La Terreirada e na Sorbonne

Nos dias 15 e 16 de novembro, a realizadora exibe seus curtas e um fragmento de Sob o Céu Nordestino (1929), de Walfredo Rodriguez, filme pioneiro do cinema paraibano

Foto: Rodrigo Barbosa

A cineasta Ana Bárbara Ramos, radicada na Paraíba, leva seus filmes à França em novembro, numa programação dedicada à sua trajetória que acontece em dois espaços de Paris: no domingo, 15 de novembro, às 19h, ela participa de uma edição especial do Ciné-Club La Terreirada, no Digital Village (21 rue Albert Bayet, 13e arrondissement), e na segunda-feira, 16, às 16h30, integra o colóquio internacional Pratiques du commun dans les lettres et les arts afro-luso-brésiliens (Práticas do comum nas letras e nas artes afro-luso-brasileiras), na Salle des Actes da Sorbonne Université (54 rue Saint-Jacques, 5e arrondissement). As duas atividades têm entrada gratuita, e a viagem conta com o apoio do edital Arte na Bagagem, do Governo da Paraíba, por meio da Secretaria de Estado da Cultura, além do La Terreirada e o CRIMIC – Centro de Pesquisa Interdisciplinar sobre os Mundos Ibero-Americanos Contemporâneos.

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É a primeira vez, em mais de duas décadas de trabalho no audiovisual, que a realizadora apresenta seus filmes na França em uma programação autoral, e a ocasião carrega um sentido de reencontro que vai além da estreia em solo francês. Foi na Aliança Francesa de João Pessoa, com sessões de cinema francês em 16mm, que nasceu o Tintin Cineclube, co-fundado e dirigido por Ana Bárbara e mantido por mais de uma década com curadoria e produção feitas por Liuba de Medeiros, Mariah Benaglia, entre outras pessoas. É em outro cineclube, agora do lado de lá do Atlântico, que parte dessa história volta a circular.

A noite de domingo no Ciné-Club La Terreirada, organizada em parceria com o colóquio da Sorbonne, recebe a sessão Pratiques du commun: Le cinéma contemporain du Nordeste brésilien, que reúne três curtas da cineasta, Desejo Citrullus, de 2003, Cabaceiras, de 2007, e Sweet Karolynne, de 2009, este último vencedor de mais de 20 prêmios nacionais. Os filmes dialogam com dois trabalhos de realizadores pernambucanos, O Carnaval é de Pelé (2024), de Daniele Leite e Lucas Santos, e Caboclinho (2023), de João Marcelo, numa seleção que propõe um encontro com a diversidade do cinema nordestino, com seus personagens, imaginários e modos de representar a região para além das imagens historicamente associadas a ela. Depois da exibição, Ana Bárbara conversa com o público ao lado da pesquisadora Amanda Mansur, e a programação se encerra com música brasileira e gastronomia popular do Nordeste.

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“Comecei a fazer cinema na Paraíba e é daqui que vêm muitas das histórias, personagens e imagens que me acompanham. Voltar a esses filmes, tantos anos depois, e apresentá-los na França é uma experiência muito especial. Alguns deles nasceram de encontros com pessoas e lugares que me surpreenderam; outros me fizeram olhar de um jeito diferente para coisas que pareciam conhecidas. Tenho curiosidade de saber como esses filmes serão vistos por pessoas de outra cultura, que perguntas vão surgir e que conversas poderão nascer desse encontro”, conta a cineasta.

Na segunda-feira, a participação na Sorbonne integra a mesa Cinéma, territoire, processus de création et partage du commun, dentro do colóquio realizado pelo CRIMIC, o Centre de Recherches Interdisciplinaires sur les Mondes Ibéro-américains Contemporains (Centro de Pesquisa Interdisciplinar sobre os Mundos Ibero-Americanos Contemporâneos). Ali, o foco se volta para as relações entre cinema, território, memória e processos de criação, com a exibição de Sociedade do Cloro, documentário de 2015 que observa a rotina de uma piscina de academia em João Pessoa, e de Cósmica (2022), filme em Super-8 sobre uma menina que escreve uma carta à Terra diante da crise climática, seguida de uma conversa com a cineasta sobre seus processos de criação, em diálogo com as noções de partilha do sensível e práticas do comum.

O ponto alto da sessão é a exibição de um fragmento de 16 minutos de Sob o Céu Nordestino, realizado em 1929 por Walfredo Rodriguez e considerado o primeiro longa-metragem documental paraibano. A obra, que apresentava um panorama socioeconômico e cultural da Paraíba e do Nordeste no início do século XX, desapareceu em Paris durante o processo de sonorização, e o pouco que restou dela atravessa agora Sob o Mesmo Céu, longa documental que Ana Bárbara realiza com roteiro assinado ao lado de Bruno Sales e apoio da Lei Paulo Gustavo, por meio da Secult-PB. Seguindo o roteiro deixado por Walfredo antes de morrer, em 1973, a equipe percorre lugares por onde o pioneiro passou e põe passado e presente em diálogo para investigar as transformações do estado, de modo que a sessão na Sorbonne funciona também como uma partilha do processo de criação de um filme ainda em produção, levado de volta à cidade onde a história de seu ponto de partida se perdeu.

“Também considero importante destacar o apoio da Secretaria de Estado da Cultura da Paraíba, por meio do edital Arte na Bagagem, que viabiliza esta viagem e contribui para a circulação internacional da produção audiovisual paraibana, ampliando suas possibilidades de encontro com outros públicos e contextos culturais”, afirma Ana Bárbara.

Sobre Ana Bárbara Ramos

Natural de Olinda (PE) e radicada na Paraíba, Ana Bárbara Ramos é cineasta, produtora cultural, educadora e pesquisadora, com mais de 25 anos de trajetória no audiovisual. Atua como diretora, produtora, curadora e pesquisadora, desenvolvendo trabalhos que articulam cinema, território, processos de criação e educação.

Dirigiu oito curtas-metragens, entre eles Sweet Karolynne (2009), vencedor de mais de 20 prêmios nacionais; Cabaceiras (2007); e Cósmica (2022). Seus filmes foram exibidos em mais de 50 festivais no Brasil e no exterior. É também realizadora do longa-metragem documental Sob o Mesmo Céu, atualmente em produção, e desenvolve a série documental infantil Abecedário Climático.

Na área da produção audiovisual, foi sócia da Pigmento Cinematográfico por dez anos e atuou na gestão pública como gerente de audiovisual da FUNJOPE e da Secretaria de Estado da Cultura da Paraíba. No campo da educação, foi professora de cinema e coordenadora pedagógica do Cearte. Em 1998, cofundou o Las Luzineides, primeiro coletivo de mulheres cineastas da Paraíba. Desde 2014, desenvolve uma trajetória voltada à interseção entre cinema e educação, com experiências de criação audiovisual e formação, especialmente relacionadas à infância. É integrante da Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN), da Redekino — Rede Latino-Americana de Educação, Cinema e Audiovisual — e do MIA — Movimento da Infância e Audiovisual.

Serviço

Ciné-Club La Terreirada — Pratiques du commun (edição especial La Terreirada × Sorbonne)
Quando: domingo, 15 de novembro de 2026, às 19h
Onde: Digital Village, 21 rue Albert Bayet, 75013, Paris, França
Filmes: Desejo Citrullus, Cabaceiras e Sweet Karolynne, de Ana Bárbara Ramos; O Carnaval é de Pelé, de Daniele Leite e Lucas Santos; e Caboclinho, de João Marcelo
Convidadas: Ana Bárbara Ramos (cineasta) e Amanda Mansur (pesquisadora)
Entrada: gratuita
Mais informações: laterreirada.org

Colóquio internacional Pratiques du commun dans les lettres et les arts afro-luso-brésiliens — Mesa 4: Cinéma, territoire, processus de création et partage du commun
Quando: segunda-feira, 16 de novembro de 2026, às 16h30
Onde: Sorbonne Université, Salle des Actes, 54 rue Saint-Jacques, 75005, Paris, França
Filmes: Sociedade do Cloro e Cósmica, de Ana Bárbara Ramos; e fragmento de Sob o Céu Nordestino, de Walfredo Rodriguez
Entrada: gratuita
Mais informações: crimic-sorbonne.fr
Apoio: Edital Arte na Bagagem, do Governo da Paraíba, por meio da Secretaria de Estado da Cultura
Instituições envolvidas: Associação Cultural La Terreirada e CRIMIC, da Sorbonne Université

Ficha técnica dos filmes

Desejo Citrullus

Direção: Ana Bárbara Ramos | 2003 | Documentário | Hi-8 | P&B | 1 min
Sinopse: O que uma mulher grávida pode perder em nome de um desejo?

Cabaceiras

Direção: Ana Bárbara Ramos | 2007 | Documentário | 35mm | Cor | 16 min
Sinopse: De posse de um serrote, quatro cabaceirenses põem fim às falsas certezas sobre o Nordeste brasileiro.

Sweet Karolynne

Direção: Ana Bárbara Ramos | 2009 | Documentário | Hi-8 | Cor | 15 min
Sinopse: Nem Elvis, nem Jarbas morreram. É tudo uma grande invenção.
 
Sociedade do Cloro

Direção: Ana Bárbara Ramos | 2015 | Documentário | HD | Cor | 15 min
Sinopse: Quando o pH da água se torna alcalino, a piscina da academia entra em manutenção. Assim, biquínis, maiôs e sungas são pendurados nos varais. Tem início o desconcertante mundo da solidão.

Cósmica

Direção: Ana Bárbara Ramos | 2022 | Documentário | Super-8 | P&B | 7 min | Filme integrante do projeto 8 por 8 – Renovação do Super 8 na Paraíba
Sinopse: Em um mundo onde a crise climática atinge proporções críticas, Iara decide falar com a Terra. Com uma visão pura e o coração determinado, ela escreve uma carta para expressar seu amor pelo planeta e convocar outras crianças para uma missão que considera de extremo valor: salvar o planeta das besteiras dos adultos.
 
Sob o Céu Nordestino

Direção: Walfredo Rodriguez | 1929 | Documentário | Fragmento de 16 min | P&B | Digital
Sinopse: Filme pioneiro do cinema paraibano, realizado no período do cinema silencioso, que apresenta um panorama socioeconômico e cultural da Paraíba e da região Nordeste no início do século XX. A obra original desapareceu, restando um fragmento preservado.

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