Uma reportagem publicada pela revista piauí nesta quarta-feira (21) revelou detalhes de um passeio de lancha do senador Flávio Bolsonaro (PL), então filho do presidente Jair Bolsonaro, com empresários ligados às negociações da vacina indiana Covaxin durante a pandemia de Covid-19. Segundo a publicação, o encontro ocorreu em 17 de julho de 2020, no Lago Paranoá, em Brasília, e contou com a presença de três garotas de programa levadas de São Paulo.
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De acordo com a apuração, o passeio foi financiado por Danilo Trento e Francisco Maximiano, respectivamente diretor institucional e proprietário da Precisa Medicamentos, empresa que afirmava representar no Brasil a fabricante da Covaxin, Bharat Biotech.
A revista relata que o grupo viajou de São Paulo para a capital federal em um jato executivo na noite anterior. As três mulheres e o agente de viagens Raphael Barão também estavam na aeronave. Barão teria sido contratado para organizar o churrasco realizado na embarcação.
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Flávio Bolsonaro chegou acompanhado de Alexandre Santini, amigo e então sócio do senador. Conforme a reportagem, Flávio desceu à cabine da lancha com garotas de programa durante a tarde. Ao final do passeio, Trento teria retirado um relógio Rolex do próprio pulso e colocado no braço do senador, que deixou o local usando o acessório.
O encontro ocorreu em um momento crítico da pandemia. Naquele dia, o Brasil registrou 1.110 mortes por Covid-19. Ao longo da crise sanitária, mais de 700 mil pessoas morreram em decorrência da doença no país.
Como a revista reconstituiu o encontro
Para reconstruir os acontecimentos, a piauí afirma ter ouvido uma pessoa que estava na embarcação, sob condição de anonimato, além de pilotos, um ex-deputado e assessores parlamentares.
A publicação também informa ter cruzado registros de voos com dados obtidos por meio de quebras de sigilo de Raphael Barão, Francisco Maximiano e Danilo Trento. Parte dessas informações teria sido encaminhada às Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) da Pandemia, do INSS e do Crime Organizado.
Negociações da Covaxin foram investigadas pela CPI da Pandemia
A Precisa Medicamentos esteve no centro de questionamentos sobre a negociação de doses da vacina Covaxin com o Ministério da Saúde durante o governo Jair Bolsonaro.
O contrato previa o pagamento de R$ 80 por dose. Para efeito de comparação, segundo os valores apresentados na reportagem original, a Pfizer oferecia doses por cerca de R$ 56,30, enquanto o preço da AstraZeneca era de R$ 18.
As negociações foram denunciadas pelo servidor do Ministério da Saúde Luis Ricardo Miranda e por seu irmão, o então deputado federal Luis Miranda. O contrato acabou cancelado antes de qualquer pagamento.
O relatório final da CPI da Pandemia recomendou o indiciamento de 78 pessoas, entre elas Flávio Bolsonaro, Danilo Trento e Francisco Maximiano.
Durante os trabalhos da comissão, Flávio defendeu publicamente a Precisa Medicamentos. Em uma das manifestações, o senador parabenizou a diretora da empresa, Emanuela Medrades, por ter “batalhado para que fosse economizado dinheiro público”.
Empresário também teria buscado reunião no BNDES
A reportagem da piauí aponta ainda que, cerca de três meses depois do passeio, Flávio Bolsonaro teria facilitado uma reunião entre Francisco Maximiano e o então presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano.
O encontro, realizado por videoconferência e com participação do senador, teria como objetivo discutir a possibilidade de financiamento para outra empresa de Maximiano. Na ocasião, o BNDES informou que nenhum financiamento havia sido contratado.
Reportagem cita outro relógio Rolex associado ao senador
O episódio relatado pela revista ocorre após a publicação de outra reportagem sobre um relógio de luxo recebido por Flávio Bolsonaro.
Em setembro, o site PlatôBR publicou informações sobre encontros do senador com garotas de programa e afirmou que ele havia recebido um Rolex Submariner Date avaliado em R$ 305 mil. Segundo a publicação, o relógio teria sido comprado pelo advogado Alan Belaciano, que representava interesses privados junto a autoridades em Brasília.
Citados não haviam se manifestado até a publicação
Segundo a piauí, Flávio Bolsonaro não havia se pronunciado sobre o passeio até o fechamento da reportagem. Danilo Trento interrompeu o contato depois de ser informado sobre o assunto que seria abordado pela revista, enquanto os advogados de Francisco Maximiano não responderam.
As informações sobre o encontro e a entrega do relógio foram atribuídas à apuração da publicação. A reportagem não apresenta, por si só, uma conclusão judicial sobre eventual irregularidade relacionada ao passeio.
