Rui Leitão: Paulo Figueiredo, o influenciador do golpismo

(Foto: Reprodução)

Vivendo nos Estados Unidos enquanto é considerado foragido da Justiça brasileira, Paulo Figueiredo tornou-se um dos mais influentes porta-vozes do bolsonarismo radical no exterior. Neto de João Figueiredo, último presidente da ditadura militar encerrada em 1985, fez do sobrenome um instrumento político e da defesa do regime militar uma marca de sua atuação pública. Longe de representar apenas uma corrente conservadora, Figueiredo construiu sua imagem promovendo uma leitura revisionista da ditadura, relativizando seus crimes e procurando conferir legitimidade a um período marcado pela supressão das liberdades civis, pela censura, pela perseguição política, pela tortura e pelo assassinato de opositores do regime. Nos Estados Unidos, produz conteúdo ao lado do blogueiro Allan dos Santos, também foragido da Justiça brasileira, consolidando uma rede de comunicação voltada à mobilização da extrema direita e à deslegitimação das instituições democráticas brasileiras.

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Seu protagonismo, contudo, extrapolou o campo da retórica. Segundo a Polícia Federal, Paulo Figueiredo desempenhou papel relevante na estratégia de divulgação de documentos destinados a pressionar o Alto Comando do Exército a aderir ao plano de ruptura institucional investigado após as eleições de 2022. Por isso, figura entre os 37 indiciados pelos crimes de tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado e organização criminosa.

Também nos Estados Unidos seu nome apareceu associado a controvérsias financeiras. Documentos judiciais revelaram que empresa vinculada a Figueiredo recebeu transferências milionárias relacionadas ao empresário chinês Miles Guo, investigado por fraude e lavagem de dinheiro. No Brasil, seu histórico inclui prisão temporária em 2019 e condenações por irregularidades administrativas e financeiras envolvendo a LSH Barra e fundos de pensão.

Como se não bastassem as investigações, Figueiredo mantém um discurso de permanente radicalização política. Recentemente, provocou forte reação ao fazer declarações consideradas misóginas sobre o eleitorado feminino, gerando desconforto até mesmo entre aliados da extrema direita. Em suas redes sociais e em seu canal no YouTube, transformou a confrontação permanente em método político, difundindo ataques a adversários, desacreditando instituições e buscando apoio internacional para pressionar autoridades brasileiras, inclusive por meio de interlocução com políticos do Partido Republicano dos Estados Unidos e de sua atuação junto à plataforma Gettr.

Sua reação ao indiciamento sintetiza sua postura. Em vez de contestar as acusações pela via jurídica, afirmou sentir-se “honrado” por elas, convertendo uma investigação criminal em instrumento de mobilização política perante seus seguidores. É, portanto, um golpista confesso. Paulo Figueiredo tornou-se mais do que um comentarista político. É um agente ativo de uma estratégia que procura enfraquecer a confiança nas instituições democráticas e reabilitar práticas autoritárias como alternativa legítima para a disputa pelo poder. Seu discurso não representa apenas nostalgia da ditadura; expressa um projeto político que procura normalizar a ruptura institucional como método de ação.

Há quem diga que o sobrenome explica sua trajetória. Talvez seja uma simplificação. O que a explica, com muito mais precisão, são suas escolhas: a defesa reiterada do autoritarismo, a tentativa de reescrever a história da ditadura e o alinhamento com aqueles que buscaram substituir a vontade das urnas pela força. É nesse conjunto de atos, e não na genealogia, que reside a dimensão política de Paulo Figueiredo.

Rui Leitão

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