A porta entreaberta do carro revela um taxista com o banco levemente inclinado, o rádio ligado, enquanto um cochilo de meio de tarde é tirado. A barba está por fazer. Fosse pego por um fiscal da Prefeitura de Maringá, hoje, ele seria considerado um fora da lei, de acordo com decreto municipal publicado no Órgão Oficial do Município, em 30 de dezembro.
A lei, sancionada pelo prefeito Carlos Roberto Pupin (PP), proíbe taxistas que não estiverem “limpos, barbeados e asseados” em seus carros. Além disso, estão vedadas refeições, “deitar ou dormir” e limpar os veículos nos pontos de táxi. Rádio e TV também não pode. Qualquer uma das ações renderá multa de R$ 500 ao infrator.
“É um país comunista? Não dá para entender essas regras. Não tem nada a acrescentar, só piora. Olha só, pode avisar eles lá: eu tomo três, quatro banhos por dia e sempre faço a barba. Está bom?”, ironiza o taxista Paulo Pickel.
“Estão querendo achar pelo em ovo. Quem inventou essa lei nunca colocou o pé em um táxi, não sabe de nada. Temos outras prioridades, muito mais urgentes. Não temos um pingo de segurança na profissão, existem vários carros irregulares, e vão encher o saco por causa da barba?”, reclama outro profissional, que não quis ser identificado, com xingamentos após completar a frase.
A reportagem esteve, entre outros locais, no ponto do terminal rodoviário de Maringá, um dos que mais concentram taxistas na cidade. Em uma roda em torno de um banco, nenhum deles quis dizer nome ou idade, segundo eles, porque há “represálias pesadas” contra quem reclama das normas municipais.
Um deles conta que, ali, não há nenhuma segurança à noite. “Existe um guardinha, mas ele vai dormir às 22h e ninguém o vê mais. Aqui, um cuida do outro. Dia desses, uns marginais vieram encrencar aqui e tivemos que sair no soco com eles. Nós chamamos a polícia. Sabe quando eles chegaram? Três horas depois”, reclama.
