Galípolo diz que caso Banco Master teve repercussão acima do porte da instituição e defende cautela na política de juros

Presidente do Banco Central afirma que pagar taxas acima do CDI não é irregular, aponta falhas de liquidez e ativos como foco do problema e diz que política monetária entrou em fase de “calibragem”

(Foto: Rovena Rosa/ Agência Brasil)

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou nesta segunda-feira (9) que o caso do Banco Master provocou uma comoção desproporcional ao tamanho da instituição e reforçou que a oferta de juros acima do mercado, por si só, não configura irregularidade nem motivo para intervenção da autoridade monetária. Segundo ele, não há regra que proíba bancos de captar recursos pagando taxas mais elevadas, como fazia a instituição controlada por Daniel Vorcaro.

As declarações foram dadas durante o evento Estabilidade Financeira e Perspectivas para 2026 e 2027, promovido pela Associação Brasileira de Bancos (ABBC), em São Paulo. Na ocasião, Galípolo detalhou os fatores que levaram o Banco Central a intensificar a supervisão sobre o Master a partir do fim de 2024.

De acordo com o presidente do BC, o problema central não estava no custo de captação, mas na combinação de dificuldades de liquidez, dúvidas sobre a qualidade dos ativos e suspeitas envolvendo as carteiras de crédito do banco. 

“Muita gente comentava essa questão de captar acima do CDI. E, como se sabe, não existe nenhuma regra que proíba fazer captações a uma taxa como aquela”, afirmou. “Tinha gente que cobrava que liquidasse o banco porque existiam CDBs sendo emitidos a uma taxa superior ao CDI. Não se trata disso”, completou.

Galípolo destacou que o episódio precisou ser analisado com cautela e de forma distinta das grandes crises bancárias do passado, como as que envolveram Bamerindus, Econômico e Nacional, instituições com relevância sistêmica para o país. No caso do Master, disse, tratava-se de um banco de menor porte, comparável a “um time da terceira divisão”.

“A pergunta dos meus pares é: por que um time da terceira divisão está causando esse tipo de comoção?”, afirmou. Segundo ele, a resposta está no fato de o caso ter extrapolado o debate estritamente financeiro, exigindo atuação conjunta com órgãos de investigação, como a Polícia Federal e o Ministério Público. “Esse é um tema que transcende o tema financeiro”, disse.

Ao explicar o funcionamento de uma instituição financeira, Galípolo ressaltou a importância do equilíbrio entre o que o banco paga aos investidores e o que recebe dos tomadores de crédito, o chamado “casamento” entre ativo e passivo. “Você precisa receber mais juros do que você paga e receber o dinheiro antes do que você tem que pagar”, afirmou. Segundo ele, mesmo sem novas captações, um banco pode manter a solvência se essa estrutura estiver bem organizada.

Na avaliação do presidente do BC, o debate público sobre o Banco Master deu peso excessivo ao nível dos juros pagos aos investidores, quando a atenção deveria ter se concentrado na qualidade dos ativos mantidos pela instituição. No fim do ano passado, o Banco Central enviou ao Tribunal de Contas da União (TCU) um histórico do processo que culminou na liquidação do banco, decretada em novembro, apontando, entre outros fatores, uma “crise aguda de liquidez” que impedia o cumprimento pontual de obrigações.

No início deste mês, a autoridade monetária também acionou a Controladoria-Geral da União (CGU) para auxiliar em uma apuração interna sobre os procedimentos adotados no caso e a conduta de integrantes do BC. Galípolo frisou que o Banco Central não faz juízo criminal. “O Banco Central não faz notícia de crime. O Banco Central noticia fatos”, afirmou, ao explicar o envio de informações às autoridades competentes.

Juros em fase de calibragem

Durante o evento, Galípolo também comentou a condução da política monetária após o Comitê de Política Monetária (Copom) manter a taxa básica de juros em 15% ao ano. Segundo ele, o BC entrou em uma “fase de calibragem”, na qual o foco é observar os dados e ajustar, com parcimônia, o grau de restrição necessário para garantir a convergência da inflação à meta.

O presidente do BC reconheceu a melhora da trajetória inflacionária desde o fim do ciclo de alta dos juros, com avanço tanto na inflação corrente quanto nas expectativas. Ao mesmo tempo, destacou que a atividade econômica se mostrou mais resiliente do que o esperado, mesmo com a taxa em nível contracionista.

“A inflação se comportou melhor do que se esperava naquele momento, mas também é verdade que a atividade se mostrou mais resiliente do que se esperava”, disse, afastando qualquer interpretação de “volta da vitória” no combate à inflação.

Segundo Galípolo, o Banco Central não persegue um nível específico de juros reais, mas ajusta a política monetária a partir da leitura contínua dos dados. Ele alertou ainda que as expectativas de inflação seguem acima da meta, especialmente em prazos mais longos, o que reforça a necessidade de uma estratégia gradual e cuidadosa. “Incomoda bastante a desancoragem das expectativas nos horizontes mais longos”, afirmou.

Galípolo também destacou a importância da autonomia das instituições e agradeceu o apoio de entidades do sistema financeiro ao trabalho do Banco Central. “Não consigo exagerar a importância desse apoio, da opinião pública e de quem joga luz e verdade, que é o mais importante nesse processo”, concluiu.

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