A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva para seu quarto mandato presidencial, no último dia 25 de outubro de 2026, representa um acontecimento singular na história política brasileira. Depois de mais de duas décadas desde sua primeira eleição, em 2002, Lula continua ocupando uma posição central na política nacional. Sua permanência como liderança eleitoral, entretanto, suscita uma questão que ultrapassa os limites da disputa partidária: por que, depois de tantos anos de governos democraticamente eleitos, o Brasil continua enfrentando dificuldades estruturais para alcançar o desenvolvimento econômico?
Siga o canal do WSCOM no Whatsapp
Entre no nosso grupo e saiba tudo em primeira mão
Essa questão ganha particular relevância quando analisada à luz do livro O Grande Fracasso: O Porquê do Brasil Não Ter se Desenvolvido nos Últimos 75 Anos, do economista Alexandre Rands Barros. Sua principal contribuição consiste em demonstrar que o atraso brasileiro não pode ser explicado exclusivamente pela inadequação das políticas econômicas, pela insuficiência dos investimentos ou pela incapacidade administrativa dos governantes. O problema seria mais profundo, encontrando suas raízes na organização social e na distribuição do poder político entre as diferentes classes econômicas.
Segundo Rands, a aliança historicamente estabelecida entre as classes média e alta permitiu a preservação de instituições que asseguram privilégios a determinados segmentos da sociedade, ao mesmo tempo que restringem as oportunidades econômicas da população mais pobre. O resultado é uma economia caracterizada pela insuficiente formação de capital humano, baixa produtividade e persistência das desigualdades.
📩 Gostou desta coluna?
Receba gratuitamente os próximos artigos e um resumo diário das principais notícias do WSCOM diretamente no seu e-mail.
Essa interpretação permite analisar a reeleição de Lula sob uma perspectiva distinta daquela normalmente utilizada no debate político brasileiro. A questão fundamental deixa de ser simplesmente quem venceu as eleições e passa a ser se o resultado eleitoral possui capacidade de modificar as estruturas institucionais responsáveis pela reprodução do subdesenvolvimento.
Uma das principais características da democracia brasileira é a coexistência entre a igualdade formal dos direitos políticos e a profunda desigualdade na distribuição dos recursos econômicos. Nas eleições, cada cidadão possui o mesmo direito ao voto, independentemente de sua renda ou posição social. Entretanto, fora do processo eleitoral, a capacidade de influenciar as decisões do Estado permanece profundamente desigual.
Os grupos economicamente mais poderosos dispõem de instrumentos que lhes permitem influenciar a formulação das políticas públicas, a organização das instituições e a distribuição dos recursos orçamentários. Essa influência não precisa ocorrer necessariamente por mecanismos ilegais. Ela pode ser exercida legitimamente por meio de organizações empresariais, associações profissionais, representação parlamentar e participação nas negociações políticas.
O problema surge quando a capacidade de organização dos grupos privilegiados produz decisões que favorecem interesses particulares em detrimento do bem-estar coletivo. Na interpretação de Alexandre Rands, essa assimetria ajuda a explicar por que o Brasil preservou, durante décadas, instituições que dificultam a ampliação da produtividade e a redução das desigualdades.
A reeleição de Lula não elimina automaticamente esse problema. Embora o presidente tenha construído sua trajetória política a partir da representação dos trabalhadores, o exercício do poder exige negociações com um Congresso Nacional composto por diferentes interesses econômicos, políticos e corporativos. Forma-se, assim, uma contradição: o presidente pode ser eleito com uma plataforma de inclusão social, mas sua capacidade de governar depende, em parte, da construção de acordos com grupos interessados na preservação das estruturas existentes. A democracia eleitoral permite a substituição dos governantes, mas não garante, por si só, a transformação das relações de poder.
Os governos de Lula promoveram políticas importantes de inclusão social, particularmente por meio da ampliação das transferências de renda, da valorização do salário mínimo e da expansão das oportunidades de acesso à educação.
Essas políticas contribuíram, em diferentes períodos, para melhorar as condições materiais de parcelas significativas da população.
Entretanto, a melhoria das condições de consumo não deve ser confundida com a superação dos mecanismos estruturais do subdesenvolvimento.
Uma sociedade pode reduzir temporariamente a pobreza monetária sem modificar suficientemente os fatores que determinam a produtividade do trabalho.
Essa distinção é fundamental para compreender a contribuição de Alexandre Rands.
O desenvolvimento econômico sustentado exige que a população amplie sua capacidade de produzir bens e serviços de maior valor agregado. Isso depende de educação de qualidade, inovação tecnológica, infraestrutura, eficiência institucional e oportunidades de inserção produtiva.
As políticas redistributivas são importantes para reduzir a pobreza e ampliar o bem-estar social, mas não substituem a necessidade de transformar a estrutura produtiva.
É justamente nesse ponto que surge um dos principais desafios do novo mandato de Lula.
Depois de ter exercido a Presidência entre 2003 e 2010 e novamente entre 2023 e 2026, Lula terá a oportunidade de iniciar um quarto mandato. A experiência acumulada permite avaliar não apenas os resultados de suas políticas sociais, mas também as dificuldades enfrentadas para modificar os fundamentos da economia brasileira.
A questão que se apresenta é se o próximo governo continuará priorizando a administração das consequências sociais do subdesenvolvimento ou se conseguirá enfrentar suas causas estruturais.
O verdadeiro significado histórico da reeleição de Lula não será determinado apenas pela vitória nas urnas, mas pela capacidade de seu quarto governo de modificar as condições que fizeram do desenvolvimento brasileiro uma promessa continuamente renovada e apenas parcialmente realizada.
Se essa transformação não ocorrer, a democracia brasileira continuará demonstrando sua capacidade de escolher governantes, mas não necessariamente sua capacidade de superar as estruturas que reproduzem o subdesenvolvimento. E o grande fracasso descrito por Alexandre Rands poderá continuar sendo a principal característica da trajetória econômica brasileira.