O espelho americano e o desprezo pelo Brasil: elites, desigualdade e mortes por desespero

“O patriotismo é o último refúgio dos canalhas” Samuel Johnson (1709–1784)

Foto: Freepik

No último domingo começou o processo eleitoral brasileiro. Os dois principais candidatos, considerados assim pelos percentuais atribuídos pelas recentes pesquisas eleitorais, tiveram suas candidaturas lançadas através de grandes aglomerações de pessoas. Em um deles aparecem nitidamente vários indivíduos portando bandeiras americanas. Isto me chamou muito a atenção, pois são justamente as pessoas que mais se dizem patriotas. Achei uma enorme contradição, e desculpem os mais sensíveis, uma indicação do caráter de vários deles.

Os Estados Unidos são frequentemente apresentados como a demonstração prática das virtudes do capitalismo, uma sociedade baseada no mérito, no empreendedorismo, na competição e na limitada intervenção estatal. O Brasil, em contraste, aparece muitas vezes descrito por seus próprios grupos privilegiados como um país condenado pelo excesso de Estado, pela baixa produtividade, pela dependência de políticas sociais e pela incapacidade de reproduzir o dinamismo americano. Essa comparação, entretanto, costuma ser profundamente seletiva.

A sociedade americana realmente produziu extraordinários avanços tecnológicos, universidades de excelência, empresas inovadoras e uma das maiores rendas per capita do planeta. Mas existe outra América, menos presente no imaginário de quem observa o país apenas por seus centros financeiros, universidades de elite e empresas de tecnologia. É a América estudada pelos economistas Anne Case e Angus Deaton, aquelas em que parcelas importantes da classe trabalhadora passaram a experimentar deterioração das condições econômicas, sociais e comunitárias.

Case e Deaton chamaram atenção para o crescimento das chamadas “mortes por desespero”, associadas a suicídio, drogas e doenças relacionadas ao abuso de álcool. O aspecto mais importante da pesquisa destes economistas não está simplesmente na mortalidade. Está naquilo que ela revela sobre o funcionamento da sociedade americana.

O fenômeno concentrou-se especialmente entre americanos sem diploma universitário. Case e Deaton encontraram uma divergência extraordinária entre os níveis de escolaridade. Em 2021, a expectativa de vida dos americanos com diploma universitário de quatro anos era aproximadamente 8,5 anos superior à daqueles sem esse diploma. Em 1992, a diferença era de aproximadamente 2,5 anos.

Ou seja, enquanto indicadores tradicionais como PIB, mercado financeiro, inovação tecnológica e lucros empresariais podem sugerir uma economia extraordinariamente bem-sucedida, os indicadores sociais contam uma história mais complicada. Case e Deaton sintetizam justamente essa contradição, a prosperidade americana distribuiu seus benefícios de maneira extremamente desigual entre grupos educacionais e sociais.

É aqui que a comparação com o Brasil se torna particularmente interessante. Parte do discurso da elite econômica brasileira costuma admirar características americanas como flexibilidade do mercado de trabalho, empreendedorismo, remuneração baseada em desempenho e menor proteção social. Mas frequentemente se presta menos atenção às consequências negativas que podem acompanhar um sistema no qual uma parcela da população perde simultaneamente emprego estável, renda relativa, status social e perspectiva de mobilidade.

Pesquisas sobre os gostos das elites econômicas brasileiras sempre encontram forte presença de referências culturais dos Estados Unidos e da Europa Ocidental como componentes do repertório de distinção social. Estudos sobre a cultura política da elite econômica brasileira discute justamente a histórica relação centro-periferia e a tendência de comparação do Brasil com países desenvolvidos a partir de uma posição de inferioridade.

Esse comportamento pode produzir uma curiosa assimetria de julgamento. Quando um problema ocorre no Brasil, ele pode ser interpretado como evidência de uma deficiência estrutural brasileira. Quando problema semelhante ocorre nos Estados Unidos, frequentemente é interpretado como uma imperfeição localizada dentro de um sistema essencialmente bem-sucedido.

Essa diferença de critérios produz uma espécie de idealização institucional. Não se compara o Brasil real com os Estados Unidos reais. Compara-se o Brasil real, com pobreza, desigualdade, violência e serviços públicos deficientes, com uma América idealizada formada por universidades de elite, empresas tecnológicas, Wall Street e elevados níveis de consumo. Desaparecem da comparação as regiões desindustrializadas, os trabalhadores excluídos do crescimento econômico e as comunidades que Case e Deaton encontraram no centro da crise das mortes por desespero.

Isto não significa que o Brasil não possua problemas estruturais muito mais graves em diversas dimensões. Nossa desigualdade histórica está associada a séculos de escravidão, concentração patrimonial, baixa escolaridade e profundas desigualdades regionais. Por isso, seria um erro utilizar as dificuldades americanas para concluir que o Brasil possui um modelo superior.

A conclusão relevante é outra. Não existe razão para o Brasil importar acriticamente instituições americanas simplesmente porque são americanas. Da mesma maneira, não existe razão para rejeitar instituições brasileiras simplesmente porque são brasileiras.

Talvez o maior sinal de maturidade de uma elite nacional seja justamente este, ser capaz de admirar o que funciona no exterior sem desprezar aquilo que funciona em seu próprio país. O desenvolvimento mental começa quando uma sociedade deixa de perguntar simplesmente “como podemos nos tornar iguais aos países ricos?” e passa a perguntar, que tipo de sociedade queremos construir e para quem deve servir o crescimento econômico?

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