A cidade que resistiu ao golpe de 64

Há momentos na história em que uma cidade deixa de ser apenas um lugar no mapa e passa a ocupar um espaço definitivo na memória de um país. Rio Tinto, no litoral norte da Paraíba, viveu um desses momentos no dia 1º de abril de 1964.

No início dos anos 1960, o Sindicato Têxtil de Rio Tinto era o maior do Estado, reunindo mais de quatro mil associados. E foi como cidade operária que Rio Tinto reagiu ao golpe. Desde as seis e meia da manhã, os trabalhadores começaram a se mobilizar. A entrada da cidade foi bloqueada. A fábrica parou. Os operários ocuparam as ruas, a praça central e a sede do sindicato. Dois homens se destacaram naquela jornada: Antônio Fernandes e o juiz Hermilo Ximenes.

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Antônio Fernandes era presidente do Sindicato Têxtil e, ao mesmo tempo, prefeito constitucional de Rio Tinto, eleito em 1963. Sua vitória havia quebrado o longo domínio político exercido pelos representantes ligados aos proprietários da fábrica. Apenas três meses depois de assumir a prefeitura, seria afastado pelos primeiros atos de cassação do novo regime.

O juiz Hermilo Ximenes também havia escolhido seu lado. Embora tivesse chegado à comarca por indicação de pessoas ligadas aos proprietários da fábrica, logo deixou claro que não seria um homem subordinado aos interesses dos poderosos. Ao ser informado de que não precisaria pagar o aluguel da casa onde morava, recusou o benefício. Fez questão de pagar e registrou o pagamento em cartório. Naquele 1º de abril, porém, diante da tensão que tomava conta de Rio Tinto, Hermilo Ximenes decidiu deixar o município, evitando uma participação mais direta nos acontecimentos.

Por volta das dez e meia da manhã, chegou à cidade uma guarnição da Polícia Militar, comandada pelo coronel Luís de Barros. A repressão começava a se impor. Antônio Fernandes foi intimado a prestar depoimento. Recusou-se a comparecer. A resposta provocou a reação da força policial, que determinou o bloqueio de toda a área do quarteirão e ordenou a retirada dos trabalhadores que ocupavam a sede do sindicato. Mas o presidente da entidade permaneceu no prédio.

O coronel Luís de Barros só retornaria ao sindicato por volta das seis horas da tarde. A ordem era clara: a sede deveria ser fechada. Quando a determinação foi cumprida, Antônio Fernandes já não estava mais ali. A resistência havia sido vencida pela força.

Nos dias seguintes, Antônio Fernandes fugiu e acabou se entregando ao Exército. Foi levado para o 15º Regimento de Infantaria, em João Pessoa, onde permaneceu preso durante seis meses. O juiz Hermilo Ximenes também foi preso. E o destino colocou os dois homens, que haviam desempenhado papéis diferentes naquela história, atrás das mesmas grades.

O movimento sindical paraibano, assim como o sindicalismo brasileiro em seu conjunto, não teve força para enfrentar a máquina repressiva que se instalou no país.
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Naquele dia, Rio Tinto foi uma cidade que não se calou. Seus trabalhadores saíram às ruas quando a democracia estava sendo arrancada do país. Pararam as máquinas, fecharam a fábrica, ocuparam a praça e fizeram da cidade um território de resistência. O golpe venceu.

Mas, naquele 1º de abril de 1964, milhares de trabalhadores de uma pequena cidade do litoral norte da Paraíba deixaram uma mensagem que atravessou o tempo: diante da ameaça à liberdade, houve quem escolhesse resistir.

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