Há uma frase de Schopenhauer que, lida hoje, parece menos uma sentença filosófica do século XIX e mais um diagnóstico clínico do presente: “No indivíduo, as imperfeições morais e intelectuais conspiram e trabalham de mãos dadas.” O filósofo de Frankfurt, notório pelo seu pessimismo metafísico, enxergava na natureza humana uma aliança perigosa entre a mediocridade do caráter e a pobreza do pensamento — como se uma alimentasse a outra num circuito vicioso, retroalimentado, sem saída fácil.
Não é difícil reconhecer, no espetáculo político contemporâneo, os contornos dessa aliança. A extrema direita que se robusteceu nas últimas décadas — não apenas no Brasil, mas em boa parte do mundo ocidental — encontrou nas mídias digitais o terreno fértil que Schopenhauer talvez não pudesse imaginar, mas certamente teria compreendido: um ecossistema onde a imperfeição intelectual e a imperfeição moral deixaram de ser vergonhas privadas para se tornarem performances públicas, aplaudidas, monetizadas e replicadas em escala industrial.
Um dos traços mais reveladores desse fenômeno é o que poderíamos chamar de fastio intelectual — o cansaço, quase físico, diante de qualquer exigência de complexidade. Não se trata de simples ignorância, que é neutra e sanável pela educação; trata-se de algo mais ativo: uma resistência deliberada ao esforço de pensar. O pensamento crítico exige tempo, dúvida, revisão de premissas, tolerância à ambiguidade. Nada disso é compatível com a gramática do vídeo de quinze segundos, com o algoritmo que recompensa a indignação instantânea e pune a ponderação.
Não por acaso, a desconfiança em relação à universidade tornou-se um dos pilares retóricos dessa direita renovada. A academia, com seu método lento, suas exigências de evidência e sua disposição para o contraditório, é tratada como inimiga — não porque erre com frequência (erra, como qualquer empreendimento humano), mas porque exige exatamente aquilo que o fastio intelectual recusa: paciência epistêmica. É mais cômodo declarar a ciência “ideológica” do que confrontar seus achados; é mais fácil zombar do especialista do que argumentar com ele.
Essa aversão ao rigor desemboca, quase naturalmente, num subjetivismo raso, em que “minha verdade” substitui a verdade tout court. Se todo fato pode ser relativizado a gosto, se toda evidência é “narrativa”, então não há mais necessidade de se sujeitar ao trabalho — moroso, humilhante às vezes — de revisar as próprias convicções diante da realidade. O sujeito torna-se juiz único de si mesmo, e a política se converte em confirmação permanente de preconceitos pré-existentes. Numa extensão possível do pensamento de Schopenhauer, poder-se-ia dizer que aqui a imperfeição intelectual presta um serviço à imperfeição moral: ao dispensar o critério objetivo, dispensa-se também a culpa.
E é nesse ponto que a engrenagem se fecha. Porque a brutalidade — verbal, primeiro; depois, com frequência preocupante, física — deixa de ser um desvio ocasional para se tornar linguagem corrente. Quando não há mais um piso comum de fatos, o adversário deixa de ser alguém com quem se discorda: torna-se um inimigo a ser destruído, humilhado, ‘cancelado’ na retórica que tanto se combate e ao mesmo tempo se pratica com fervor redobrado. A brutalidade ordinária de que fala a crítica contemporânea não é um excesso lamentável nas margens do movimento; é, goste-se ou não admitir, parte estrutural de sua gramática afetiva.
Aqui reside talvez a atualidade mais perturbadora de Schopenhauer: ele não via a maldade e a burrice como fenômenos isolados, acidentais, mas como parceiras de uma mesma economia psíquica. Quem não quer pensar precisa de certezas simples; quem precisa de certezas simples precisa de inimigos claros; quem tem inimigos claros permite-se, com a consciência tranquila, desumanizá-los. A imperfeição intelectual não apenas convive com a imperfeição moral — ela a justifica, a blinda, a converte em virtude.
Se há alguma utilidade em revisitar Schopenhauer neste momento, não é para condenar sumariamente um campo político inteiro à irracionalidade — o que seria, ironicamente, reproduzir a mesma pobreza de raciocínio que se pretende criticar —, mas para lembrar algo mais incômodo: a democracia não sobrevive apenas de instituições; sobrevive de hábitos mentais. Sobrevive da disposição, cada vez mais rara, de duvidar de si mesmo, de tolerar a complexidade, de recusar o prazer fácil da humilhação do adversário.
Talvez o verdadeiro antídoto contra a conspiração entre imperfeição moral e imperfeição intelectual não esteja em programa político, mas numa ética do pensamento: a coragem de permanecer incomodado pela dúvida — a mesma dúvida que um tempo movido a likes e algoritmos pune, recompensando em seu lugar a certeza fácil e o conforto de já saber.

