A ligação entre Donald Trump e a família Bolsonaro sempre foi explícita. O ex-presidente Jair Bolsonaro fazia questão de demonstrar sua admiração pelo mandatário norte-americano, a quem chegou a dirigir um efusivo “I love you” durante uma Assembleia-Geral da ONU. Seu filho Eduardo Bolsonaro transferiu-se para os Estados Unidos no início do ano passado com o objetivo declarado de articular contatos com autoridades americanas, movimento que vem resultando na adoção de medidas hostis ao Brasil. Já Flávio Bolsonaro, escolhido pelo pai para representar politicamente a família na disputa presidencial, participou de um encontro com Trump apenas uma semana antes do anúncio da designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, bem como de um novo “tarifaço”.
Embora o presidente Lula tenha conseguido estabelecer uma relação institucionalmente cordial com Trump, o ambiente político já não é o mesmo. A ala mais radical do governo norte-americano, liderada pelo secretário de Estado Marco Rubio, trabalhou nas últimas semanas para fortalecer o alinhamento político com o clã Bolsonaro. Como demonstração desse movimento, Trump compartilhou em sua rede social, a Truth Social, um artigo do Newsmax que classificava a eleição presidencial brasileira como seu “próximo desafio” e levantava questionamentos sobre a integridade do sistema eleitoral do país.
A partir desse gesto, fica evidente sua disposição de interferir politicamente no processo eleitoral brasileiro. Somadas às divergências ideológicas já existentes, as críticas de Trump ao sistema eleitoral brasileiro tendem a ocupar posição central no debate político, reproduzindo estratégia semelhante à utilizada tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil em eleições anteriores.
Desde o ano passado, quando foi imposto ao Brasil o primeiro “tarifaço”, Lula vem explorando uma estratégia politicamente eficiente: defender a soberania nacional e a democracia, ao mesmo tempo em que procura capitalizar os frequentes equívocos da oposição. A decisão de Trump acaba oferecendo ao presidente brasileiro uma oportunidade valiosa para reforçar esse discurso.
O principal debate político decorrente desse episódio consiste em identificar quem será o verdadeiro beneficiário eleitoral dessa interferência. As pesquisas mais recentes indicam que o episódio provocou um enfraquecimento da candidatura do filho do ex-presidente. Em outras palavras, a pergunta que surge é simples: Trump será cabo eleitoral de Lula ou de Flávio Bolsonaro?
As evidências disponíveis sugerem que essa associação não vem produzindo ganhos significativos para a extrema direita. Dados do Instituto Real Time Big Data indicam que um eventual endosso direto de Trump encontra resistência em parcela expressiva do eleitorado brasileiro, limitando seu potencial de transferência de votos.
Quando Lula reage afirmando categoricamente que Trump não deve se meter nas eleições brasileiras, sua mensagem não parece destinada ao presidente norte-americano, mas sim ao eleitor brasileiro. Trata-se de uma tentativa de reforçar o discurso da soberania nacional em contraposição ao que o governo classifica como “falso patriotismo” da direita. A postura de Trump, muitas vezes percebida como a de alguém que ainda age como “imperador do mundo”, não costuma repercutir positivamente entre brasileiros que rejeitam qualquer ideia de subordinação do país aos interesses dos Estados Unidos.
Entretanto, apesar dos fatores favoráveis à reeleição de Lula, seria um erro ignorar a força eleitoral de seu principal adversário. O candidato apoiado pelo bolsonarismo parte de uma base sólida de intenções de voto, sustentada tanto pelo eleitorado mais ideologicamente alinhado à direita quanto por aqueles que não veem com simpatia a perspectiva de um quarto mandato de Lula.
Ainda assim, ao atacar instituições brasileiras, defender a família Bolsonaro e tratar o Brasil como extensão de sua área de influência política, Trump acaba contribuindo para transformar Lula em beneficiário de sua própria arrogância. Embora tenha celebrado vitórias de candidatos alinhados às suas posições em alguns países da América Latina, é importante lembrar que sua interferência política também produziu efeitos contrários em diferentes contextos internacionais, fortalecendo adversários que souberam explorar o sentimento nacionalista e a defesa da soberania.
O episódio também tem potencial para aproximar Lula de eleitores independentes, que não se identificam plenamente nem com o lulismo nem com o bolsonarismo. São cidadãos que valorizam a democracia, a autonomia das instituições e a soberania nacional, independentemente de suas preferências partidárias.
Os próximos capítulos dessa novela política serão decisivos para esclarecer os reais efeitos da atuação de Trump no cenário brasileiro. Por enquanto, uma conclusão provisória parece possível: ao tentar influenciar a eleição presidencial brasileira, Trump pode estar ajudando menos os Bolsonaro e mais o seu principal adversário político. Se essa tendência se confirmará nas urnas, somente o eleitor brasileiro poderá responder.

