Morre Jomard Muniz de Britto, poeta e cineasta pernambucano, aos 89 anos

Artista foi um dos precursores do tropicalismo em Pernambuco e teve trajetória marcada pelo cinema experimental, pela filosofia e pela resistência à ditadura militar

Foto: (Annaclarice Almeida/DP/D.A Press)
24/10/2013. Credito: Annaclarice Almeida/DP/D.A Press. - ESPECIAL DITADURA GREGORIO BEZERRA - Serie de personagens que viveram na ditadura e eram amigos de Gregorio Bezerra, politico, comunista, preso na casa de cultura de Recife (onde existia uma prisao, na epoca) anistiado e torturado. Na foto, Jomard Muniz, escritor, tropicalista, conheceu Gregorio Bezerra na prisao do Forte das Cinco Pontas, onde foi preso no Regime Militar. Site, site

O poeta, filósofo, professor e cineasta pernambucano Jomard Muniz de Britto morreu na madrugada desta segunda-feira (12), aos 89 anos. Reconhecido pela atuação em diferentes áreas da cultura, ele ficou conhecido por obras como O Palhaço Degolado e Inventário de um Feudalismo Cultural, além de sua contribuição para o desenvolvimento do tropicalismo em Pernambuco.

O velório será realizado a partir das 10h, na capela do Cemitério de Santo Amaro, no Centro do Recife. O sepultamento está previsto para as 16h.

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Nascido em 8 de abril de 1937, no bairro de São José, no Recife, Jomard construiu uma trajetória que reuniu filosofia, literatura, cinema e música. Também atuou como professor e agitador cultural, com participação em debates sobre a identidade e a produção artística pernambucana.

Aproximação com Paulo Freire e prisão durante a ditadura

Jomard integrou a equipe do Serviço de Extensão da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) a convite do educador Paulo Freire. Em maio de 1964, após o golpe militar, integrantes do grupo receberam informações de que estavam sob vigilância e poderiam ser presos.

Naquele ano, Jomard foi detido e levado ao Forte das Cinco Pontas, no Recife, onde dividiu cela com o político Gregório Bezerra durante cerca de 20 dias.

O artista se aposentou precocemente da UFPE, onde lecionava, mas continuou ministrando aulas e palestras. Também desenvolveu atividades acadêmicas na Paraíba, com passagens por cidades como Campina Grande e João Pessoa.

A partir de 1969, por determinação do comando militar da região, foi impedido de lecionar na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). A medida ocorreu no contexto da perseguição política durante a ditadura militar.

Influência de Glauber Rocha e divergências com Ariano Suassuna

No início dos anos 1960, Jomard se aproximou do cineasta baiano Glauber Rocha, que o convidou para passar uma temporada em Salvador. O pernambucano atribuía ao diretor o despertar de seu interesse pela realização cultural.

Jomard também estudou estética com Ariano Suassuna. Apesar da proximidade inicial, os dois tiveram divergências intelectuais ao longo do tempo.

Sua atuação transitou entre diferentes linguagens artísticas e áreas do conhecimento. Como professor, ministrou disciplinas como introdução à filosofia, teoria do conhecimento e estética.

Cineasta foi um dos precursores do tropicalismo em Pernambuco

Jomard é considerado um dos nomes que contribuíram para a formação do tropicalismo em Pernambuco. Em 1968, assinou, ao lado do músico Aristides Guimarães e do jornalista Celso Marconi, o primeiro manifesto tropicalista.

Sua produção também teve impacto sobre artistas como Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Nas décadas de 1970 e 1980, ampliou sua atuação no cinema experimental, principalmente por meio de filmes produzidos em super-8, formato que marcou parte da produção independente brasileira naquele período.

O Palhaço Degolado tornou-se sua obra mais conhecida

Produzido entre 1976 e 1977, O Palhaço Degolado é um dos trabalhos mais conhecidos de Jomard Muniz de Britto. Com 13 minutos de duração, o filme apresenta o artista caracterizado como palhaço enquanto caminha pela antiga Casa de Detenção do Recife, atual Casa da Cultura, no bairro de Santo Antônio.

Durante o monólogo, o personagem questiona referências consagradas da cultura regional, especialmente os intelectuais Gilberto Freyre e Ariano Suassuna.

Segundo o historiador Aristides Oliveira, a obra expressa a angústia do cineasta diante das limitações impostas às práticas culturais em um contexto marcado pelos efeitos do golpe militar de 1964.

O filme recebeu o prêmio de Melhor Filme sobre o Homem e o Nordeste no Festival de Cinema Super 8. Também integrou a programação do Festival Nacional do Filme Super-8 e da Mostra Marginália 70, em São Paulo.

Biografia e exibição de filmes marcaram últimos anos

Em 2017, quando Jomard completou 80 anos, foi lançada a biografia Jomard Muniz de Britto: Professor em transe, escrita pela jornalista Fabiana Moraes e pelo historiador Aristides Oliveira.

Em novembro de 2025, parte de sua produção cinematográfica voltou às telas durante a 16ª edição do Janela Internacional de Cinema do Recife. Os filmes foram remasterizados e exibidos no festival, idealizado pelo cineasta Kleber Mendonça Filho, com a presença do curador audiovisual Moacir dos Anjos.

Entre as obras exibidas estavam Jogos Labiais Libidinais (1979), Inventário de um Feudalismo Cultural (1978), Alto Nível Baixo (1977), Discurso Classe Média (1977) e O Palhaço Degolado (1976).

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