Há um personagem cada vez mais presente nas conversas, nas redes sociais, nas mesas de bar, nos templos religiosos e, às vezes, até onde se esperaria maior prudência: aquela figura que sempre já sabe. Não importa o assunto. Direito, economia, medicina, futebol, religião, política internacinal, inteligência artificial ou educação. Ele sempre tem uma resposta pronta.
Não estuda muito, mas conclui depressa. Não pesquisa com profundidade, mas fala com absoluta convicção. Não conhece os detalhes, mas domina, ao menos na própria imaginação, todas as respostas.
Ele não coleciona conhecimentos. Coleciona certezas. Ontem mesmo, estudando uma matéria para preparar a minuta de um voto, voltei a perceber algo que o tempo apenas confirma: quanto mais nos debruçamos sobre determinado assunto, mais descobrimos o tamanho daquilo que ainda não sabemos.
Todo assunto é vasto. Uma pergunta leva a outra, uma conclusão encontra uma exceção, uma resposta abre novas dúvidas. O estudo sério tem esse curioso efeito: aumenta o conhecimento e, ao mesmo tempo, amplia a consciência de nossas limitações.
Talvez por isso quem verdadeiramente conhece alguma coisa tenha cuidado com a palavra “dominar”. Quem afirma dominar completamente um assunto talvez não domine sequer o alcance dessa afirmação. Hoje, pesquisar tornou-se extraordinariamente mais fácil. A inteligência artificial é exemplo disso. Localiza informações, confronta dados, organiza caminhos e amplia nossa capacidade de pesquisa. Mas pesquisar não é pensar.
A ferramenta pode colocar elementos sobre a mesa. Cabe ao ser humano compreender, selecionar, confrontar e construir o raciocínio. Num voto, não basta encontrar jurisprudência, doutrina ou precedentes. É preciso compreender o caso e transformar informação em convencimento racional.
E existe algo ainda mais importante nesse processo: a humildade intelectual.
Não há nenhuma diminuição em dizer: “não sei; preciso estudar melhor antes de responder”. Ao contrário. Reconhecer os limites do próprio conhecimento talvez seja uma de suas formas mais elevadas.
Também não vejo grandeza em transformar opinião em patrimônio irrenunciável. Posso sustentar uma posição com absoluta convicção e, diante de um argumento melhor, reconhecer que estava errado e mudar. Isso não enfraquece o pensamento. Demonstra que ele continua vivo.
Raul Seixas eternizou essa ideia em Metamorfose Ambulante: melhor mudar do que permanecer aprisionado à velha opinião sobre tudo. É também uma das virtudes do julgamento colegiado. Posso chegar a uma sessão convencido de determinada solução e ouvir de um colega um fundamento que não havia considerado. Se ele me convencer, não tenho dificuldade alguma em modificar o voto. Amanhã poderá ocorrer o inverso. O conhecimento também se constrói pelo confronto respeitoso das ideias.
Uma mente ativa não tem compromisso com o próprio erro. Tem compromisso com aquilo que, naquele momento, considera verdadeiro. Por isso, quanto mais estudo, menos simpatia tenho pela expressão “isso eu já sei”. Prefiro a dúvida que provoca uma nova pesquisa à certeza que encerra qualquer reflexão.
O verdadeiro estudioso pesquisa, duvida, reconsidera e continua aprendendo. O especialista em tudo dispensa essas etapas.
E talvez seja essa a diferença fundamental entre os dois. Um continua estudando porque sabe que não sabe tudo. O outro já terminou de estudar.

