O fantasma do autoritarismo ainda ronda

Flávio Bolsonaro
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Problemas estruturais como pobreza, violência e corrupção alimentam o descontentamento social e abrem espaço para a ascensão de lideranças com perfil autocrático. Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil, mas aqui ganhou contornos particularmente preocupantes nos últimos anos. A crise política e de legitimidade democrática que atravessamos revelou o quão vulneráveis podem ser nossas instituições. A eleição de 2022, nesse contexto, não foi apenas mais um processo eleitoral: representou um ponto de inflexão, um freio necessário a um processo de erosão democrática que já se mostrava avançado.

Ainda assim, seria um erro grave supor que o risco passou. A polarização política segue intensa e corrosiva, criando um ambiente propício à radicalização e ao enfraquecimento do debate público. As estratégias de autocratização continuam em curso: a fabricação de inimigos, os ataques sistemáticos a opositores, o uso deliberado da desinformação e a incitação ao ódio e à violência como instrumentos de mobilização política. Trata-se de uma lógica que não busca convencer, mas intimidar e silenciar.

Nesse cenário, as redes sociais deixaram de ser meros espaços de interação para se tornarem verdadeiros campos de disputa política. Seu poder de agregação de opiniões, somado à formação de bolhas ideológicas, tem distorcido o debate público e ampliado a capacidade de mobilização de grupos organizados. Não por acaso, movimentos cívicos de direita ampliaram significativamente sua presença e influência. Diante disso, a regulamentação das plataformas digitais deixa de ser uma opção e passa a ser uma necessidade urgente para a preservação do próprio regime democrático.

Mais preocupante ainda é o fato de que os agentes da autocratização não se limitam a tensionar o sistema por dentro, há sinais claros de tentativa de construção de condições para uma ruptura institucional. Os ataques recorrentes ao Poder Judiciário, em especial ao TSE e ao STF, e a insistente deslegitimação das urnas eletrônicas não são episódios isolados. São parte de uma estratégia deliberada de enfraquecimento da confiança pública, com o objetivo de preparar terreno para contestar resultados eleitorais e, em última instância, justificar ações golpistas. A sombra da ditadura de 1964, evocada direta ou indiretamente, não pode ser tratada com leviandade.

Diante desse quadro, não há espaço para complacência. A sociedade civil, as lideranças políticas e as instituições de justiça precisam atuar de forma vigilante e coordenada. A defesa da democracia não se faz apenas em momentos de crise aguda, mas também na construção cotidiana de mecanismos institucionais sólidos. As eleições e o Congresso Nacional continuam sendo pilares fundamentais capazes de conter avanços autoritários, desde que ocupados por representantes comprometidos com o Estado Democrático de Direito.

O populismo de extrema direita permanece ativo e encontra terreno fértil em uma cultura política que ainda carrega traços autoritários profundos. As próximas eleições, portanto, não serão apenas uma disputa por poder, mas um teste decisivo sobre o rumo institucional do país. Escolher bem deixou de ser apenas um direito: tornou-se uma responsabilidade coletiva.

Ignorar o peso histórico do autoritarismo no Brasil é repetir erros que já custaram caro à sociedade.
Entre 2016 e janeiro de 2023, vivemos talvez o momento mais crítico de uma trajetória recente marcada por tentativas de enfraquecimento democrático. Esse período deve servir como alerta permanente. A democracia brasileira não é uma conquista consolidada, é um projeto em constante construção, que exige vigilância, compromisso e, sobretudo, memória.

A história, de fato, ensina. Resta saber se estamos dispostos a aprender com ela.

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