O fascismo não anuncia a sua chegada, por Cid Gadelha

urna votação

Por que segue sendo leitura obrigatória em tempos de urnas tensas

A poucos dias do segundo turno, o debate público gira em torno de uma palavra que poucos se dão ao trabalho de definir. Uns a invocam como alarme, outros a descartam
como exagero, e em ambos os casos ela costuma chegar sem critério. É esse vazio que A Anatomia do Fascismo, do historiador norte-americano Robert O. Paxton, publicado
em 2004, ajuda a preencher. Não porque entregue veredictos, mas porque oferece parâmetros: o que observar, em que ordem e com que grau de cautela. Num país que
decide o próprio rumo sob a pressão do medo e da pressa, não é pouco.

Robert Paxton

Robert Paxton

Comecemos pela advertência que o próprio Paxton faria: “fascismo” é um dos termos mais maltratados do vocabulário político. Convertido em insulto, serve tanto para
designar um tirano quanto um adversário incômodo. O historiador, que dedicou a vida a estudar a França de Vichy, desconfia dessa inflação. Para ele, o fascismo não se
reconhece pela leitura de manifestos, mas pela observação de condutas. Sua definição descreve uma forma de comportamento político marcada pela obsessão com a
decadência, a humilhação e a vitimização de uma comunidade, e por cultos compensatórios de unidade, energia e pureza. Nela, um partido de massas, formado por
militantes nacionalistas, atua em colaboração incômoda, mas eficaz, com as elites tradicionais, abandona as liberdades democráticas e persegue, com violência redentora
e sem freios éticos ou legais, a limpeza interna e a expansão externa.

O centro dessa definição não é o uniforme, a saudação ou o culto explícito a Mussolini.

É a dinâmica. Daí o primeiro ensinamento do livro: o fascismo do futuro não se apresentará com os figurinos do passado. Falará a língua do patriotismo local,
empunhará os símbolos da própria nação e se dirá, com toda a sinceridade, defensor da liberdade contra os inimigos que a ameaçam. Quem procurar botas e braçadeiras para
reconhecê-lo chegará tarde.

O segundo ensinamento, o mais incômodo, diz respeito às elites. Contrariando a imagem das marchas triunfais, Paxton demonstra que nem Mussolini nem Hitler
chegaram ao poder pela força bruta. Foram chamados a ele. Em 1922 e em 1933, lideranças conservadoras, industriais, militares e políticos de centro-direita calcularam
que poderiam domesticar o movimento radical, aproveitando a energia popular do movimento e descartando seus excessos. Franz von Papen, vice-chanceler de Hitler, teria
assegurado a um interlocutor cético que em poucos meses o novo chefe de governo estaria encurralado num canto. Sabe-se o que veio depois. O fascismo não é obra apenas
de fanáticos; depende da conivência de moderados convencidos de que controlam a situação.

O terceiro ponto é a periodização. O autor distingue cinco estágios: a criação dos movimentos, seu enraizamento no sistema político, a conquista do poder, o exercício
do poder e, por fim, a radicalização ou a entropia. Nem todo movimento os atravessa, e a passagem de um a outro não é fatal. Depende de condições que Paxton enumera com
precisão clínica: a erosão da confiança nas instituições representativas, o bloqueio do sistema político, o medo difuso de uma ameaça à ordem e a disposição de aliados
respeitáveis a se associarem ao radicalismo. A história, portanto, não é destino, mas uma sucessão de decisões. Em cada estágio houve alguém que poderia ter dito não.
Em uma eventual vitória da extrema direita no segundo turno, existe risco concreto de implantação de um sistema neofascista no Brasil. Não afirmo que o Brasil de 2026 seja
a Itália de 1922 ou a Alemanha de 1933. Não saímos de uma guerra devastadora, e o fascismo não se reproduz por decalque. Mas é justamente o rigor de Paxton que nos
impede de buscar abrigo na diferença de cenários. As democracias europeias não ruíram por falta de semelhanças com o passado, e sim por julgarem inofensivo, passageiro ou
controlável o que tinham diante dos olhos.

No caso brasileiro, os sinais não são abstratos. Há a desconfiança deliberada no processo eleitoral, o assédio permanente às cortes e à imprensa, a transformação do adversário em inimigo a ser eliminado, a celebração de uma violência tida por regeneradora. O 8 de janeiro de 2023 não revelou a solidez da República, mas a sua vulnerabilidade. Que a tentativa tenha sido contida não apaga o fato de que foi tentada, tolerada e animada por setores jamais plenamente responsabilizados, e de que seus propósitos seguem celebrados por parte expressiva do campo político. Nenhum desses sinais, isolado, bastaria. Reunidos, compõem o quadro que Paxton descreve como condição de passagem do enraizamento à conquista do poder.

Uma vitória nas urnas seria, nessa leitura, a entrada no terceiro estágio com a chave do quarto na mão. O que o historiador ensina sobre o exercício do poder fascista é que ele
raramente se contenta com o ritual eleitoral que o legitimou. Ocupa o Estado por dentro, subordina os órgãos de controle, converte a lealdade pessoal em critério de
pertencimento e consome a energia da base em perseguições sucessivas, porque o movimento vive de mobilização permanente. A democracia, nesse processo, não
costuma ser abolida por decreto. É esvaziada por concessões, cada qual defensável isoladamente.

E há o fenômeno que o livro aponta como decisivo: a conivência das elites. A direita tradicional e a centro-direita, que em outros tempos serviram de dique ao radicalismo,
foram capturadas por ele. Cederam o discurso, a pauta e, por fim, a própria identidade.

Repete-se a aposta fatal de Von Papen, a ilusão de que a energia da extrema direita pode ser aproveitada e seus excessos, depois, contidos. Vale lembrar que o próprio
Paxton, notoriamente cauteloso com o rótulo, rendeu-se em janeiro de 2021, após a invasão do Capitólio, à pertinência da palavra para descrever o que via nos Estados
Unidos. O rigor que o continha foi, ao cabo, o que o fez superar a própria hesitação.

Não ignoro a objeção, que é respeitável e vem de analistas sérios: nem toda direita radical é fascista, o rótulo indiscriminado empobrece o debate e alimenta o
ressentimento que pretende combater, e a resiliência das instituições brasileiras seria prova de que o sistema segue funcional. Concordo com a primeira parte. Não rotulo
milhões de eleitores, muitos deles movidos por angústias legítimas, como a insegurança econômica, o medo da violência e o desencanto com a política. A responsabilidade
maior recai sobre quem, tendo o dever de oferecer a esses cidadãos uma alternativa democrática, preferiu entregá-los a quem os instrumentaliza. Quanto à segunda parte,
discordo. Instituições resistem enquanto há quem as defenda, e foi a decisão de homens e mulheres concretos, não a inércia das estruturas, que conteve o pior em janeiro de
2023.

No domingo, o eleitor fará sua escolha em segredo e com liberdade, como deve ser. A democracia não admite tutela sobre o voto, e quem a invoca para constranger o eleitor
a trai por outra via. Mas a liberdade de escolher não dispensa a obrigação de escolher informado. Que cada cidadão leve à urna não o medo nem o ressentimento, mas a
memória: a de que os regimes que prometeram redenção nacional quase sempre começaram prometendo resolver depressa o que a democracia resolve devagar.
Paxton não faz profecias. Ensina apenas que cada estágio é uma encruzilhada e que, em cada uma, alguém decide. A vigilância, portanto, não é histeria. É a forma adulta do amor à liberdade.

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