O deputado federal eleito pela Paraíba, Cabo Gilberto Silva, citou Adolf Hitler e a Alemanha nazista durante entrevista à Arapuan FM, nesta segunda-feira (6), ao comentar a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) e fazer uma analogia com a conjuntura política brasileira. Na avaliação apresentada pelo parlamentar, a “humilhação” imposta à Alemanha após a Primeira Guerra Mundial teria contribuído diretamente para o fortalecimento de Hitler e para a eclosão da Segunda Guerra Mundial.
“O fortalecimento da Alemanha nazista se deu por conta da humilhação que os aliados”, afirmou.
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Em seguida, ao ser questionado se estava prevendo uma nova guerra mundial no Brasil, o deputado negou. Segundo ele, a referência era apenas histórica e serviria para explicar os efeitos que, em sua avaliação, a humilhação de um país poderia provocar.
A fala ocorreu durante uma discussão sobre o STF. Cabo Gilberto afirmou que a população estaria sendo “humilhada” pela Corte e defendeu que o ministro Alexandre de Moraes deveria ser responsabilizado por supostos crimes.
Analogia apresenta erros históricos
A interpretação apresentada pelo deputado, no entanto, é questionada por análises históricas sobre a ascensão do nazismo. O Tratado de Versalhes, assinado em 1919, de fato impôs duras condições à Alemanha após a Primeira Guerra Mundial e tornou-se um dos elementos explorados pela propaganda nazista. A derrota e as condições impostas ao país também foram utilizadas pelos nazistas para atacar a República de Weimar.
A relação, porém, não pode ser resumida à ideia de que a “humilhação” produziu diretamente Hitler ou o nazismo.
Em 1928, quase uma década depois da assinatura do Tratado de Versalhes, o Partido Nazista recebeu cerca de 2,6% dos votos nas eleições parlamentares alemãs. A expansão eleitoral do partido ocorreu principalmente a partir da Crise de 1929, quando a Grande Depressão provocou desemprego em massa, instabilidade econômica e agravamento da crise política alemã.
Outro ponto é que Hitler não foi eleito chanceler diretamente pelo voto popular. Em janeiro de 1933, ele foi nomeado chanceler pelo presidente Paul von Hindenburg. O Partido Nazista havia obtido forte crescimento eleitoral, mas não possuía maioria absoluta no Parlamento.
Hitler chegou ao poder pela estratégia de “legalidade”
O professor de história, Jefter Porto, analisou a declaração também chamou atenção para outro aspecto da trajetória de Hitler. Em 1923, o líder nazista participou da tentativa de golpe conhecida como Putsch da Cervejaria de Munique, que fracassou e levou à sua prisão.
Durante o período preso, Hitler escreveu parte de Mein Kampf e, posteriormente, passou a defender uma estratégia diferente para alcançar o poder: a utilização das instituições da própria República de Weimar.
A estratégia ficou conhecida como o “caminho da legalidade”, pelo qual os nazistas buscariam chegar ao poder por meios institucionais para, depois, desmontar a democracia por dentro.
O professor também criticou a menção a Winston Churchill feita por Cabo Gilberto. Durante a entrevista, o deputado citou Churchill ao falar dos vencedores da Primeira Guerra Mundial. Churchill, porém, só assumiu o cargo de primeiro-ministro britânico em 1940, já durante a Segunda Guerra Mundial.
Para o professor, a escolha da Alemanha nazista como referência também chama atenção porque movimentos políticos de diferentes espectros ideológicos poderiam ser analisados a partir de outros momentos históricos, como a ascensão do neoliberalismo nas décadas de 1980 e 1990.
