Nos últimos dez anos passamos a conviver com uma batalha moral no ringue da política brasileira. A extrema-direita baseada no lema “Deus, Pátria e Família”, procura construir entre nós o retorno a estruturas colonialistas do passado. O conservadorismo moral, que caracteriza ideologicamente o bolsonarismo, está no cerne das lutas por narrativas que têm garantido o fortalecimento da direita nacional-populista pós-moderna, ao despertar múltiplos alicerces morais em seus seguidores. Considerando que o Brasil tem uma população majoritariamente conservadora em relação aos costumes, à moral e à cultura, esse discurso utilizado tem um forte apelo emocional.
O conservadorismo é um pensamento político que se diz defender a manutenção das instituições sociais tradicionais – como a família, a comunidade local e a religião, opondo-se a qualquer tipo de movimentos revolucionários e de políticas progressistas. Os ideólogos da extrema-direita atuam como se estivessem em defesa da ordem, da justiça e da liberdade. Por conta disso tentaram censurar escolas e manifestações artísticas, como se fazia durante o período da ditadura militar. Estabelecia-se uma guerra contra o que chamavam de “marxismo cultural”, conforme denominou Olavo de Carvalho, elaborando uma retórica que pudesse exprimir medo e ódio em grande parcela da população, que se sentia insegura, manipulando mentes no convencimento de que estávamos correndo o risco da implantação do comunismo, através da cultura, da ciência e da comunicação.
Seus seguidores sucumbem a apelos tecnicamente bem planejados, por lideranças que buscam o atendimento dos seus interesses pessoais e políticos pela dominação. Fazem da religião instrumentalização irresponsavelmente abusiva como base de manipulação da fé. Incitam a crença cega para promover a submissão a autoridades com vocação despótica. A questão religiosa consiste em um pano de fundo para desestimular indagações sobre valores cristalizados e assim provocar uma subordinação a interesses alheios à própria religião, alinhados a perspectivas políticas antidemocráticas.
O conservadorismo autoritário que ressurgiu no Brasil recente, se apoia na visão fundamentalista de que o mundo deve ser concebido binariamente, dividido em dois grupos: um supostamente do bem e o outro representando o mal. Aí se afirma a grande contradição com a democracia, uma vez que suscita um nacionalismo beligerante, adotando uma postura de guerra contra o inimigo, baseada na obediência irrestrita à hierarquia verticalizada e autoritária. Expõe, então, o sistema democrático à predominância do anti-intelectualismo, subestimando a nossa capacidade de pensar. Nas pautas da extrema-direita, se evidenciam propostas políticas que se opõem à legalização do aborto e aos movimentos LGBTQQI+, negros e feministas. Percebe-se, todavia, que o discurso falso moralista, esbarra, muitas vezes, no comportamento em contrário do que pregam
O conservadorismo moral se coloca contra o mundo moderno, com o objetivo de se tornar uma referência social, ética e política. A nossa formação sócio-histórica, advinda da estrutura escravista colonial da sociedade brasileira, dificulta a que as ideias revolucionárias se afirmem. O pensamento conservador, como expressão ideológica, ganhou ascensão no campo político contemporâneo, alimentando o sistema capitalista. Esse contexto exige que se intensifique a defesa da democracia, livrando-a das constantes ameaças que vem sofrendo. É preciso enfrentar essa ideologia política reacionária, avessa à democracia, às minorias e à ciência.

