Uma matéria publicada na tarde desta segunda-feira (24), no jornal O Globo, repercutiu áudio do deputado estadual e líder da oposição na Assembleia Legislativa da Paraíba (ALPB), Cabo Gilberto (PSL), insuflando uma ‘guerra’ da Polícia Militar contra o Governo do Estado. Segundo a reportagem, o parlamentar tem instigado os policiais para que abandonem plantões e realizem um movimento contra a gestão estadual, instalando, como consequência, um caos na segurança pública na Paraíba.
O texto da reportagem reforça que Forças Armadas e policiais militares não podem paralisar suas atividades por se tratar de serviços essenciais, ou seja, caso paralisem prejudicam diretamente a população.
A matéria ainda aponta uma escalada na violência nos últimos dias em decorrência do policiamento comprometido, apontando ainda que o governador está com negociação aberta com a categoria a fim de resolver o impasse no que diz respeito à remuneração.
O Cabo Gilberto fala no áudio enviado às forças de segurança em um suposto “combinado” para que no final de semana, a partir da última sexta-feira (21), os policiais entregassem os plantões extras. De acordo com o parlamentar, João Azevêdo (Cidadania) seria o “inimigo” de uma “guerra” que o parlamentar diz estar ocorrendo contra o Governo do Estado.
“Meus irmãos, policiais e bombeiros militares, neste domingo, precisamos que todos façam o que a guarnição de ontem fez. Se uniram ao movimento Polícia Legal, tudo dentro da legalidade. Estamos em guerra. O governador é nosso inimigo. Ele não respeita a instituição, humilha os militares, engana os militares, tenta passar para a sociedade que nós que somos intransigentes. Socialista não gosta de polícia, odeia militar. Não existe diálogo com esse tipo de gente. Eles só entendem pressão, e temos que pressionar”, disse o parlamentar.
Ouça:
Na reportagem sobre o áudio do deputado paraibano, o jornal O Globo ilustrou a matéria com foto de um ônibus que foi incendiado por criminosos na noite desse domingo (23), justamente no período em que Cabo Gilberto pediu para que os policiais não trabalhassem.

Confira a matéria na íntegra:
Em áudio vazado, deputado bolsonarista cabo da PM insufla movimento contra governo da PB: ‘Estamos em guerra’
Com a segurança pública em pauta na Paraíba, o deputado estadual Cabo Gilberto (PSL), ligado ao bolsonarismo, insuflou policiais militares a aderirem a um movimento contra o governador João Azevêdo (Cidadania), a quem chamou de “inimigo”. Em áudios vazados, o parlamentar sugere que os agentes entreguem os plantões extras e, se estiverem de folga, “ajudem a sociedade”, o que incluiria atirar em criminosos. Com o policiamento comprometido, o estado registrou uma escalada na violência nos últimos dias. Entre os episódios, estão uma onda de assaltos na cidade de Patos e um ônibus incendiado neste domingo na capital João Pessoa.
A declaração incita os policiais a se unirem ao movimento que reivindica melhorias nas condições de trabalho e de salários à classe, proibida por lei de realizar greves. Segundo a Constituição, Forças Armadas e policiais militares estão impedidos de paralisarem suas atividades. Isso porque entende-se que se trata de serviços essenciais à sociedade e, portanto, sua suspensão prejudicaria a população.
“Meus irmãos, policiais e bombeiros militares, neste domingo, precisamos que todos façam o que a guarnição de ontem fez. Se uniram ao movimento Polícia Legal, tudo dentro da legalidade. Estamos em guerra. O governador é nosso inimigo. Ele não respeita a instituição, humilha os militares, engana os militares, tenta passar para a sociedade que nós que somos intransigentes. Socialista não gosta de polícia, odeia militar. Não existe diálogo com esse tipo de gente. Eles só entendem pressão, e temos que pressionar”, disse o deputado.
No áudio, divulgado pelo Blog do Dércio e ao qual O GLOBO teve acesso, o parlamentar reforça que os policiais dispensem os plantões extras para fortalecer o movimento em todo o estado e pede para que aqueles que estiverem de folga atirem caso se deparem com um “marginal armado”. Procurado, Cabo Gilberto não retornou até esta publicação.
“A guarnição de domingo, como foi combinado, (vai) entregar os plantões extras e vamos unir o movimento dentro da legalidade. Façam as mesmas coisas que os do plantão de sábado fizeram. Isso em toda a Paraíba. É muito importante para que nosso movimento fique forte a cada dia, dentro da legalidade, já que não podemos fazer greve. Então essa é a nossa missão. E todos os policiais que estiverem de folga ajudem a sociedade. Marginal armado atirando… Quem atira para matar leva tiro para morrer. Essa é a nossa missão”, afirma.
Nas redes sociais, o deputado já havia conclamado prefeitos paraibanos a cobrarem o governador pelo “caos na segurança pública”. “Toda criminalidade que acontecer no estado a responsabilidade é de inteira do Sr governador Jão Malvadeza que exterminou os militares”, disse em um dos post.
Azevêdo, que faz oposição ao presidente Jair Bolsonaro (PL) e migrou do PSB para o Cidadania em 2019, afirmou em vídeo publicado nas redes sociais nesta segunda-feira que não vai admitir “greve branca” nem que políticos usem “policiais para confrontos inconstitucionais e fora de propósito”.
“Não admitirei coisas do tipo como operação padrão ou greve branca, como foi insinuado em áudios e vídeos por quem está na política e tenta usar os policiais para confrontos inconstitucionais e fora de propósito. Policial é para combater o crime, promover a paz social e proteger a sociedade. E não para fazer política partidária e eleitoral nos quartéis e dentro da categoria”, disse. “Não me furtarei em nenhum momento a acionar o Ministério Público e a Justiça paraibana, se for o caso, para restabelecer as funções hierárquicas e constitucionais das forças de segurança. Espero não ter que fazê-lo, mas para manter a ordem e a convivência harmônica da sociedade paraibana jamais fugirei às minhas responsabilidades”.
O governador disse ainda que mantém diálogo com a categoria e afirmou que a menor remuneração de um soldado será de R$ 4.206, 87. O valor, incluindo plantões extras, pode chegar a R$ 6.800 ou até mesmo exceder R$ 8.000 se eles ocorrerem em finais de semana.
O caso se soma a mais um movimento organizado por grupos dentro da PM nos estados durante o governo Bolsonaro. Em 2020, um motim realizado por policiais militares no Ceará reacendeu o debate sobre o veto a paralisações de servidores de segurança pública. Na ocasião, o governador Cid Gomes (PDT) foi baleado após tentar invadir com uma retroescavadeira um quartel ocupado por PMs em Sobral. O cenário culminou no envio das Forças Armadas ao estado.
