O silêncio cúmplice da mídia corporativa, por Rui Leitão

A mídia corporativa brasileira parece incomodada com a mobilização dos estudantes que estão ocupando as ruas de todo o país para manifestar sua posição política em defesa da democracia. A repercussão dada a essas manifestações não corresponde à dimensão política de um movimento que recoloca a juventude no centro da luta pelos destinos do Brasil.

Não se trata de um acontecimento qualquer. Quando os estudantes saem das salas de aula e ocupam os espaços públicos para defender a democracia, estão demonstrando que não aceitam assistir passivamente às ameaças que pairam sobre as instituições e o futuro do país. Estão dizendo, com sua presença nas ruas, que a democracia não é uma concessão dos poderosos, mas um direito conquistado com muita luta e sacrifício.

Por que, então, essa mobilização não recebe a atenção que merece? Por que manifestações de tamanha relevância política não ocupam o espaço proporcional à sua importância no noticiário nacional?

É legítimo questionar os critérios editoriais de uma imprensa que tantas vezes transforma determinados episódios políticos em grandes acontecimentos, mas parece não demonstrar o mesmo interesse quando a juventude se mobiliza e leva às ruas uma mensagem de resistência democrática. A quem interessa diminuir a visibilidade de um movimento que desperta a consciência política dos estudantes e convoca a sociedade a defender a democracia?

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A imprensa não precisa concordar com as bandeiras levantadas pelos manifestantes. Sua obrigação, porém, é informar, contextualizar e permitir que a sociedade conheça os acontecimentos que podem influenciar os rumos da nação. Quando a cobertura é insuficiente, seletiva ou desproporcional, cabe à sociedade cobrar transparência e independência editorial.

O que não podemos aceitar é que a força das ruas seja tratada como um acontecimento secundário, enquanto a disputa pelo poder ocupa quase todo o espaço do debate público.

A mobilização estudantil tem significado político próprio: representa a participação de uma geração que compreende que o futuro não pode ser entregue àqueles que desprezam o diálogo, desrespeitam as instituições ou tratam a democracia como um obstáculo aos seus projetos de poder.

A história brasileira nos ensina que a democracia também depende da coragem dos que se recusam a permanecer em silêncio. Foi assim em diferentes momentos de nossa trajetória, quando estudantes, trabalhadores e movimentos populares enfrentaram o autoritarismo e ajudaram a reconquistar as liberdades democráticas.

A juventude está nas ruas. A pergunta é: por que parte da grande mídia parece tão pouco interessada em mostrar essa realidade ao Brasil?
O silêncio editorial não elimina a força de uma manifestação. Mas, quando reduz a visibilidade de acontecimentos relevantes, empobrece o debate público e priva os cidadãos de informações necessárias ao exercício consciente da cidadania.

A democracia precisa de estudantes dispostos a defendê-la, de cidadãos atentos e de uma imprensa que não escolha os fatos segundo suas conveniências. Porque, quando a juventude luta pela liberdade, o Brasil precisa saber. E quando a democracia está em jogo, o silêncio nunca é uma atitude politicamente irrelevante.

Rui Leitão

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