A revista Veja parece não ter aprendido nada com o desgaste de sua credibilidade ao longo dos anos. Continua recorrendo a narrativas de forte impacto político, levantando suspeitas e difundindo informações que podem induzir a opinião pública ao erro. Quando o compromisso com a verdade cede espaço à conveniência eleitoral, o jornalismo abandona sua função essencial e se transforma em instrumento de disputa pelo poder.
A mais recente controvérsia é emblemática. A revista divulga uma narrativa que sugere que Daniel Vorcaro teria prestado depoimento mencionando um suposto patrocínio de um documentário sobre Lula. Entretanto, segundo os advogados de Vorcaro, ele não prestou depoimento no âmbito das tratativas de uma eventual delação premiada.
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A pergunta é inevitável: como se pode construir uma narrativa de tamanha repercussão política sem esclarecer, de maneira inequívoca, a existência e o conteúdo do suposto depoimento? Em matéria de jornalismo, não basta insinuar, levantar suspeitas e deixar que o leitor tire conclusões a partir de informações não devidamente comprovadas. Isso não é investigação rigorosa. É uma prática que pode comprometer a credibilidade da informação e causar danos à reputação de pessoas e instituições.
O problema se torna ainda mais grave quando uma publicação dessa natureza surge em meio à disputa eleitoral e suas consequências podem favorecer o candidato identificado com os interesses do mercado financeiro, o chamado candidato da Faria Lima.
Não é possível afirmar, sem provas, qual foi a intenção editorial da revista. Mas é legítimo questionar a quem interessa a divulgação de narrativas que atingem adversários políticos sem que os fatos apresentados estejam devidamente demonstrados.
A Veja precisa compreender que não tem o direito de tratar a opinião pública como massa de manobra. A liberdade de imprensa, conquista fundamental da democracia, não é salvo-conduto para publicar insinuações como se fossem fatos, tampouco para transformar suspeitas em munição eleitoral. Quanto maior o alcance de um veículo, maior deve ser sua responsabilidade.
O Brasil não precisa de uma imprensa que escolha seus candidatos e construa narrativas para ajudá-los a chegar ao poder. Precisa de um jornalismo que investigue todos, cobre explicações de todos e submeta todos os interesses ao mesmo rigor.
Se há provas, que sejam apresentadas. Se há fatos, que sejam demonstrados. Se houve erro, que seja corrigido com o mesmo destaque dado à acusação. O que não se pode admitir é que a suspeita substitua a prova e que a insinuação seja usada para fabricar verdades convenientes.
A democracia não se sustenta apenas com eleições livres. Depende também de cidadãos bem informados, capazes de distinguir fatos de manipulações. E é justamente por isso que a imprensa que brinca com a verdade não presta um desserviço apenas ao jornalismo: presta um desserviço à própria democracia.
