Nunca foi tão fácil fazer a escolha, por Rui Leitão

Foto: reprodução

Como enfrentar a onda autoritária que atravessa diferentes partes do mundo? Em primeiro lugar, votando com memória. Lembrando o que vivemos em tempos não tão distantes, quando o Brasil passou mais de duas décadas submetido a um regime autoritário, no qual liberdades fundamentais foram restringidas e milhares de brasileiros foram presos, perseguidos, torturados, exilados e, em muitos casos, mortos, simplesmente porque discordavam do sistema de opressão então vigente.

É preciso lembrar também de um Estado que restringiu a liberdade de expressão, censurou a imprensa, perseguiu opositores e conviveu com graves violações de direitos humanos. E lembrar de um período em que decisões sobre o destino do país foram tomadas sem participação popular e em que interesses e influências estrangeiras fizeram parte do contexto político brasileiro. A pergunta que se impõe é simples: queremos correr novamente esse risco?

Em segundo lugar, é necessário votar com consciência crítica. Isso significa reconhecer que eleições colocam diante do eleitor diferentes projetos de país e avaliar cada um deles a partir de suas propostas, de sua trajetória política, de seus compromissos democráticos e de suas posições diante de questões fundamentais. Entre esses critérios estão a defesa do Estado Democrático de Direito, a soberania nacional, a redução das desigualdades, a proteção dos direitos individuais e coletivos, a valorização da ciência e da educação, o fortalecimento da saúde pública e o respeito à diversidade religiosa, política e cultural.

Também é legítimo perguntar como cada candidatura pretende conduzir a política externa e defender os interesses estratégicos do Brasil. Um país soberano precisa estabelecer relações internacionais com diferentes nações sem abrir mão de sua autonomia para decidir sobre suas riquezas, seu território e seu futuro.

Da mesma maneira, o eleitor deve observar se está diante de um projeto de Estado e de Nação ou predominantemente de um projeto de poder, com caracteristicas de uma dinastia, onde os governos se sucedsm por herança familiar. Deve perguntar quem financia as campanhas, quais grupos econômicos apoiam cada candidatura, quais interesses são representados e quais políticas econômicas e sociais poderão resultar dessas alianças.

A religião também não pode ser transformada em instrumento de exclusão política. A Constituição brasileira assegura a liberdade religiosa e estabelece a separação entre o Estado e as diferentes confissões. O governante eleito deverá governar para todos os brasileiros, independentemente de sua fé, de sua origem, de sua posição política ou de sua condição social.

O mesmo vale para o patriotismo. Amar o Brasil não significa apenas exibir a bandeira, cantar o hino ou vestir as cores nacionais. Patriotismo também significa defender a soberania do país, suas riquezas, suas instituições, sua democracia e o direito de seu povo decidir livremente seu próprio destino.

Hoje, portanto, o eleitor está diante de uma responsabilidade que ultrapassa nomes e partidos. É preciso comparar propostas, examinar trajetórias, ouvir os discursos e, sobretudo, verificar a coerência entre aquilo que cada candidato promete e aquilo que efetivamente defendeu ou realizou ao longo de sua vida pública.

A democracia não se resume ao ato de apertar uma tecla na urna. Ela exige memória, informação, espírito crítico e respeito àqueles que pensam de maneira diferente.

Que este seja, portanto, um dia de reflexão e de participação democrática. Que cada brasileiro possa votar livremente, sem medo, sem coerção e sem ódio, consciente de que a escolha feita nas urnas ajudará a definir os caminhos que o país seguirá nos próximos anos.

O Brasil tem diante de si questões fundamentais: democracia ou autoritarismo? Soberania ou dependência? Inclusão social ou aprofundamento das desigualdades? Respeito às instituições ou confronto permanente? Ciência e educação ou negacionismo? Diálogo ou política baseada no ódio?
São perguntas que merecem respostas responsáveis.

E talvez essa seja a maior exigência deste momento histórico: não permitir que o Brasil escolha seu futuro esquecendo o seu passado. Hoje tenho a convicção de que teremos uma noite de festa. A festa da democracia. Porque nunca foi tão fácil fazer a escolha.

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