Coisas de alcova, por Durval Leal Filho

Pesquiso a história das rendas há cerca de trinta anos. Escrevi um livro sobre o tema e, quanto mais mergulho nesse universo, mais perguntas encontro.

Rendeira confeccionando peça de Renda Renascença no Cariri paraibano.

Fazer perguntas é uma coisa muito difícil

Quem pergunta corre o risco de se tornar inconveniente, um chato: ou porque não entendeu, ou porque entendeu demais e resolveu questionar o porquê.

Algumas perguntas são bem recebidas. Outras atravessam anos sem resposta. Há aquelas que parecem simples, mas escondem tantas variáveis que exigem tempo, pesquisa e disposição para olhar além daquilo que está à vista.

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Pesquiso a história das rendas há cerca de trinta anos. Escrevi um livro sobre o tema e, quanto mais mergulho nesse universo, mais perguntas encontro.

Há muito tempo, uma questão me acompanha: qual é a importância do nó na história da humanidade? A pergunta pode parecer uma brincadeira, mas não é. O nó prende, une, sustenta, protege, cria formas e abre e fecha possibilidades.

Está na pesca, na agricultura, na navegação, na informática, nos rituais, nas tripas, nos tecidos e nas rendas. Antes de ser ornamento, foi uma tecnologia e um meio de comunicação necessário à sobrevivência.

Talvez por isso perguntar sobre o nó seja também perguntar sobre as mãos que o dominaram e sobre as pessoas que permaneceram escondidas atrás daquilo que produziram.

No artesanato, a beleza sempre me atraiu. Como “artevista cultural”, alcunha proferida pelo amigo Lauriston Pinheiro, que sempre me surpreende, fui definido certa vez por esse amigo, para não ser chamado de “pentelho”.

O artesanato encanta pela diversidade de suas formas, mas a vida de quem o realiza quase sempre é marcada por condições adversas e pela invisibilidade.

Esse contraste não começou agora. Ao longo das transformações econômicas e sociais, sobretudo depois da Revolução Industrial, os artesãos foram perdendo espaço, reconhecimento e autonomia. A produção mecanizada avançou, enquanto o trabalho manual ficou associado ao atraso, à subsistência e aos pequenos núcleos familiares. O objeto artesanal continuou sendo admirado, mas o artesão, nem sempre.

Nos pequenos municípios, essa contradição se torna ainda mais evidente. A peça ganha visibilidade nas feiras, nas fotografias institucionais e nos discursos sobre identidade cultural e valores territoriais.

Quem a produz, porém, permanece no cotidiano silencioso da casa, dividido entre a sobrevivência da família e o tempo exigido pelo trabalho manual.

Nessa história, a maior invisibilidade recai sobre a mulher. É ela quem trabalha dentro de casa, cuida da família, administra as dificuldades e ainda encontra tempo para criar.

No território dos Cariris Velhos, na Paraíba, e nas áreas que fazem divisa com o Agreste pernambucano, essa realidade pode ser observada na trajetória da Renda Renascença.

A técnica veio de longe. Passou pela Itália, chegou às escolas de freiras em Olinda e, depois, alcançou o interior. No período posterior à guerra, Dona Lalá, uma mulher que havia trabalhado na casa de uma senhora, voltou ao seu território levando o conhecimento adquirido. Ao ensinar outras jovens, ajudou a estabelecer uma prática que atravessaria gerações.

Assim, a Renda Renascença expandiu-se do Agreste de Pernambuco para o Cariri paraibano. Hoje, milhares de mulheres dependem, direta ou indiretamente, dessa atividade. São mulheres que transformam linha, lacê, agulha e tempo em peças reconhecidas pela delicadeza. Entretanto, o reconhecimento da beleza não significa, necessariamente, reconhecimento econômico e social.

Quem faz renda não tem renda.

Aprender com essas mulheres exige mais do que fazer perguntas. Exige olhar e, principalmente, escutar. Muitas falam pouco sobre si mesmas. Trabalham, resolvem, sustentam e seguem adiante. Foi observando e ouvindo aquilo que me permitiram conhecer que tracei o percurso do livro Rendas do Cariri no horizonte NÓS.

O horizonte inscrito no título também é uma pergunta. Depois de trinta anos de pesquisa e convivência com o artesanato, uma dúvida continua a me incomodar: por que as primeiras-damas ocupam, com tanta frequência, posições de comando ou de honra nos programas estaduais de artesanato?

A pergunta não pretende discutir a capacidade individual de cada mulher que tenha exercido essa função. O problema é institucional, técnico e funcional.

Qual é o critério que transforma o vínculo conjugal com o governador em qualificação para dirigir, representar ou influenciar uma política pública? Por que uma área complexa, que envolve cultura, economia, formação, design, comercialização, internacionalização e direitos sociais, ainda pode ser conduzida como extensão doméstica do poder, um puxadinho da alcova?

Contudo, essa reação não responde à pergunta principal: por que, ao longo de tantos anos, o artesanato paraibano foi tratado mais como vitrine do que como cadeia produtiva que necessita de planejamento, conhecimento técnico e continuidade geracional?

O Programa do Artesanato Paraibano nasceu, em 1998, de uma concepção colegiada, com a criação da CAPA – Comissão de Assessoramento do Programa de Artesanato.

Havia a intenção de reunir instituições, profissionais e representantes capazes de discutir e formular caminhos. A Comissão de Assessoramento do Programa do Artesanato da Paraíba permitia, ao menos em princípio, que as decisões fossem debatidas coletivamente e que os projetos fossem analisados pelas instituições quanto aos seus impactos e à sua eficiência.

Com o tempo, essa estrutura perdeu força. A gestão passou a depender de pessoas escolhidas nem sempre por seu conhecimento técnico, sua experiência no setor ou sua capacidade de planejamento. Muitas possuíam sensibilidade estética e bom gosto, mas administrar uma política de artesanato exige mais do que escolher peças bonitas. Exige compreender território, produção, formação, preço, mercado, identidade cultural e condições de trabalho.

Aos poucos, o programa foi se restringindo às feiras e aos eventos de comercialização, com foco na divulgação e em capacitações pontuais. A política passou a valorizar o momento da exposição, sem necessariamente cuidar do processo que permite ao artesão continuar produzindo com dignidade e continuidade.

E as perguntas permanecem. Como a atividade artesanal terá futuro sem enfrentar a questão geracional? Como surgirão novos artesãos sem Oficinas Escola e programas permanentes de formação?

Como preservar uma técnica sem garantir condições para que os mais jovens desejem aprendê-la? Como falar em mercado sem discutir comércio justo? Como divulgar uma peça sem observar o bem-estar da mulher ou do homem que a produziu?

Em quase três décadas, a experiência mais concreta de Oficinas Escola para rendeiras nasceu da sociedade civil, por intermédio da ONG PARA’IWA e das associações, da extensão universitária da UFPB e da parceria com o município, que cedeu professoras que atuavam em sala de aula e sabiam fazer renda.

Depois disso, não se consolidou uma política contínua de formação e renovação. Multiplicaram-se as feiras, mas as estruturas capazes de transmitir o conhecimento entre as gerações continuaram frágeis.

Se nada mudar, o que mostraremos daqui a trinta anos?

Talvez feiras cenográficas, com reproduções fabricadas por máquinas a partir do desenho de um artesanato que já não existe.

Pode parecer uma ironia futurista, mas ela nasce de uma constatação presente: os artesãos envelhecem, os jovens não encontram condições para permanecer na atividade e o conhecimento corre o risco de desaparecer junto com quem ainda o guarda.

Durante muito tempo, não compreendi por que a presença das primeiras-damas era considerada indispensável. Até ouvir de uma gestora que elas seriam importantes porque dormem com o governador e, na intimidade, poderiam colocar ideias na cabeça dele.

A declaração, apresentada como justificativa, respondeu à pergunta de uma maneira que eu não esperava. Como era óbvia e cruel! As artesanias dependem de uma conversa de alcova. Assim, constatei que, de 200 a 2026, apenas uma primeira-dama não foi “patronesse”, pois era juíza.

Então, era isso? O futuro do artesanato dependeria da conversa de travesseiro? Uma política pública seria fortalecida não pelo planejamento, pela participação social ou pela competência técnica, mas pela proximidade da alcova?

Confesso: diante de uma explicação tão reveladora, quase pedi desculpas por minha cegueira. Durante anos, procurei respostas em conselhos, projetos, oficinas, pesquisas e experiências de campo.

Não havia percebido que o destino do artesanato poderia ser decidido entre lençóis, em alguma conversa reservada do casal governante.

A ironia, naturalmente, não se dirige à intimidade de ninguém. Ela expõe a fragilidade de um modelo administrativo nos quais relações pessoais podem substituir critérios públicos. Quando um programa depende da influência conjugal para chegar ao chefe do Executivo, o problema não está no quarto. Está na ausência de institucionalidade do lado de fora dele.

Na Paraíba, essa vinculação entre a primeiras-damas e o programa de artesanato atravessou diferentes governos. Mudaram os nomes, as gestões e as circunstâncias, mas a lógica permaneceu semelhante.

O artesanato continuou associado à representação social, às feiras, à divulgação e à imagem do governo de ocasião.

Por isso, a pergunta continua: o artesanato é uma política de Estado ou uma “coisa de alcova”?

A resposta exige pesquisa e comparação com outros estados. Talvez o modelo se repita em outras regiões; talvez existam experiências diferentes. É necessário verificar antes de generalizar.

Entretanto, as mulheres artesãs que dedicam dias, semanas ou meses à produção dessas rendas continuam vivendo, em muitos casos, em condições abaixo da linha da pobreza, sem um planejamento capaz de articular formação, produção, certificação, comercialização, sucessão geracional e comércio justo.

Em 1999, um novelo de linha tecido ou rendado era pago a R$ 7,00. Sua produção exigia de 20 a 24 horas de trabalho especializado e concentrado. O valor correspondia a aproximadamente 5,15% do salário-mínimo da época, fixado em R$ 136,00.

Em 2026, com o salário-mínimo de R$ 1.621,00, o mesmo novelo custa R$ 80,00, valor equivalente a apenas 4,94% desse salário. Nos 27 anos decorridos entre o final da década de 1990 e 2026, a valorização do trabalho das artesãs não avançou de forma significativa.

Quando comparado ao salário-mínimo, o preço do trabalho artesanal praticamente estagnou. Permaneceu em torno de 5% do rendimento mínimo mensal, exigindo, para cada novelo, as mesmas 20 a 24 horas de trabalho concentrado.

Apesar do crescimento nominal dos preços e dos discursos de modernização, a vida da maioria das artesãs continua marcada pela baixa remuneração, pelo trabalho intensivo, pela invisibilidade, pela ausência de renovação geracional e pela inexistência de políticas de comércio justos capazes de assegurar condições dignas de produção.

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