Existe uma diferença entre cidades que prosperam e cidades que só administram problemas. Algumas olham para uma praça abandonada e só enxergam despesa; outras enxergam um ativo subutilizado, capaz de atrair investimento, gerar receita e voltar a cumprir sua função social. Foi isso que aconteceu em Cleveland, nos Estados Unidos.
Durante boa parte do século 20, a Euclid Avenue deixou de ser a elegante Millionaires’ Row – endereço de famílias como os Rockefeller –, para virar um corredor de prédios vazios e degradação urbana. Por anos, a cidade esperou que o orçamento público desse conta do problema. Não deu. Até que alguém teve a ousadia de perguntar se haveria alguém disposto a ajudar.
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Dois hospitais da região, através de naming rights, ajudaram a financiar a HealthLine, uma das linhas de transporte público mais modernas do mundo, que foi a salvação da região: mais de US$ 5 bilhões em investimentos, 110 novos empreendimentos e prêmios internacionais de urbanismo. Cada dólar investido gerou outros US$ 190 em desenvolvimento. E esse não é o único exemplo.
Em Londres, parte do teleférico sobre o Tâmisa foi financiado com naming rights de uma companhia aérea. No Brooklyn, pátios ferroviários abandonados viraram um dos polos mais movimentados de Nova York, depois que o naming rights de uma arena ajudou a financiar a obra.
E antes que alguém diga, isso está longe de ser novidade estrangeira. Desde 2021, o Metrô de São Paulo comercializa naming rights de estações, criando receita sem aumentar imposto, sem vender patrimônio e sem descaracterizar os equipamentos. Na verdade, essa ferramenta existe há mais de um século: nasceu nos anos 1920, quando batizaram o estádio do Chicago Cubs com uma marca de chicletes. Com o tempo, isso saiu dos estádios e passou a financiar parques, centros culturais, transporte e eventos públicos mundo afora.
Acredito que fazer boa política não é reinventar a roda. É ter humildade para olhar o que funciona no mundo e inteligência para adaptar à nossa realidade. Foi essa lógica que inspirou o projeto de naming rights que apresentei, agora sancionado em João Pessoa.
A ideia é simples: a lei permite que empresas invistam na manutenção ou recuperação de espaços e eventos públicos. Em troca, elas associam suas marcas ao nome desses equipamentos. Sem outdoor, sem transformar a cidade em painel publicitário. O nome original, inclusive, é preservado, e a marca adiciona apenas um “sobrenome”.
João Pessoa convive há décadas com espaços esquecidos, e o motivo é simples: todo orçamento é uma questão de escolha. Saúde disputa com educação, educação com mobilidade, e no fim da fila quase sempre sobram as praças, os ginásios e os parques. Os naming rights rompem essa lógica, porque criam uma fonte de financiamento para espaços que nunca tem prioridade orçamentária.
Imagine, por exemplo, o Ginásio Hermes Taurino, em Mangabeira, recuperado sem tirar recursos da saúde. Imagine as praças do Treze de Maio e do Castelo Branco revitalizadas sem reduzir investimento em educação. E o principal: sem que você pague mais imposto por isso.
“Ícaro, mas o que garante o funcionamento disso?”
Além da própria legislação, a ferramenta cria um incentivo automático: o próprio patrocinador passa a ser um fiscal interessado. Afinal, nenhuma empresa investe para ver sua marca associada ao mato alto e à ferrugem. Manter o equipamento em ordem e funcionando deixa de ser interesse só da Prefeitura e passa a ser também interesse de quem investiu nele.
O mesmo vale para eventos: o Forró Verão, por exemplo, consome R$3 milhões por ano, só em cachês. Com investimento privado, dá para manter eventos assim e usar o dinheiro para saúde, educação e mobilidade urbana, por exemplo. Sei que a proposta gerou desconfiança quanto às casas de apostas (bets). É preocupação legítima, mas que se resolve com dois mecanismos:
- A própria Câmara já aprovou lei proibindo publicidade de apostas em espaço público (sim, votei a favor).
- Como se não bastasse, meu gabinete já apresentou um segundo projeto, vedando explicitamente contratos de naming rights com bets e entretenimento adulto. Não porque fosse indispensável, mas porque, em interesse público, redundância também é virtude.
O problema é que existe uma tentação na política brasileira de transformar debate técnico em disputa por slogan, porque é mais fácil produzir indignação do que solução. Mas cidades não são administradas por manchetes, e sim por boas decisões. Não espero unanimidade. Espero que o debate aconteça sobre fatos, em vez de sobre falsas polêmicas, construídas apenas para render curtida.
Políticos (e candidatos) precisam entender a diferença entre fazer oposição e fazer barulho: Oposição melhora projetos. Barulho só alimenta o algoritmo.
O tempo, felizmente, costuma ser um juiz rigoroso. Ele separa, sem muito esforço, quem passou pela política colecionando discursos de quem deixou soluções.
Eu sei de que lado dessa história pretendo estar.
* Ícaro Chaves (@icarofchaves) é vereador em João Pessoa pelo Podemos. É o vereador mais jovem dessa Legislatura. Também é empresário, arquiteto, urbanista e pós-graduado em Gestão, Governança e Setor Público.

