Da Armadilha de Tucídides e os Limites Econômicos da Hegemonia Americana

Graham Alisson
Graham Allison, professor da Universidade Harvard e autor do livro "A caminho da guerra". (Foto: Martha Stewart / Reprodução)

Na manhã desta segunda-feira (15/06/2026) foi anunciado pela impressa que os EUA e o Irã chegaram a um acordo sobre a guerra que o primeiro destes começou. Comecei a conjeturar sobre o resultado, pois a impressa indica que EUA não obtiveram uma vitória, mas uma derrota política. Me questionei por que este país entrou numa furada como esta. Me lembrei do conceito de Armadilha de Tucídides.

O conceito da Armadilha de Tucídides, popularizado por Graham Allison, descreveu o risco de guerra quando uma potência emergente ameaça substituir uma potência dominante. O contexto original do conceito falava sobre a ascensão de Atenas e o medo que isso provocou em Esparta. Este produziu a Guerra do Peloponeso. No século XXI, muitos analistas veem uma dinâmica semelhante na rivalidade entre os Estados Unidos e a China.

Entretanto, a atual guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã sugere que a questão central não é apenas a ascensão de uma nova potência. O problema também reside na capacidade da potência dominante de sustentar economicamente sua posição global. Nesse sentido, a análise de historiadores como Paul Kennedy torna-se complementar à Armadilha de Tucídides.

Kennedy argumenta que grandes potências entram em declínio quando seus compromissos militares crescem mais rapidamente que sua capacidade econômica. O resultado é o fenômeno conhecido como “imperial overstretch” ou sobrecarga imperial. Nas últimas quatro décadas, a China realizou a maior transformação econômica da história moderna.

O país tornou-se a maior potência manufatureira do mundo, a líder em diversos setores tecnológicos, a principal parceira comercial de dezenas de países e um dos maiores investidores em infraestrutura global. Através da iniciativa Belt and Road Initiative, Pequim expandiu sua presença econômica pela Ásia, África, América Latina e Oriente Médio. Tal como Atenas após a Guerra com Esparta, a China utiliza prosperidade econômica para ampliar influência política.Os Estados Unidos permanecem sendo a maior potência militar do planeta. Entretanto, vários indicadores mostram sinais de tensão estrutural. A dívida pública é crescente com déficits fiscais recorrentes. Uma polarização política acentuada. Uma perda relativa de participação industrial com aumento dos custos associados à manutenção da ordem internacional.

Ao contrário da Guerra Fria, quando a economia americana representava parcela dominante da produção mundial, hoje Washington enfrenta um competidor econômico de escala comparável. A situação lembra a preocupação de Esparta diante do crescimento contínuo de Atenas.

Sob essa ótica, o Irã não é apenas um adversário regional. Ele ocupa posição estratégica porque controla acesso ao Golfo Pérsico, influencia o mercado energético global, mantém relações crescentes com China e Rússia e desafia a arquitetura de segurança construída pelos EUA no Oriente Médio. O conflito entre EUA, Israel e Irã, então, torna-se uma frente secundária de uma competição muito maior.

Enquanto Washington concentra recursos militares no Oriente Médio, a China amplia investimentos, comércio e influência diplomática em várias regiões do mundo.
Existe uma dimensão econômica fundamental nessa disputa. O crescimento chinês depende fortemente de importações de energia oriundas do Oriente Médio. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos buscam preservar influência sobre as principais rotas energéticas globais.

O controle indireto das cadeias de energia representa uma forma de poder geopolítico. Por isso, o Oriente Médio continua sendo estratégico mesmo após a revolução do petróleo de xisto americano. O maior risco para os Estados Unidos talvez não seja militar. Pode ser econômico.

A história mostra que grandes potências frequentemente entram em declínio não por derrotas militares diretas, mas porque o custo de manter sua posição internacional supera sua capacidade econômica. Este foi o caso da Espanha no século XVII, da França napoleônica, do Reino Unido após as duas guerras mundiais e da União Soviética durante a Guerra Fria. Todas enfrentaram um problema semelhante, gastos estratégicos crescentes e base econômica relativamente enfraquecida.

As ideias de Joel Mokyr, prêmio Nobel de 2025, ajudam a aprofundar a análise. Mokyr argumenta que o verdadeiro poder de longo prazo depende da capacidade de inovação. A liderança mundial não é determinada apenas por exércitos ou recursos naturais. Ela depende de produção de conhecimento, de universidades com pesquisa científica de vanguarda, com instituições abertas e liberdade intelectual. Tudo o que o atual governo Trump combate.

Nesse aspecto, a competição EUA–China pode ser decidida menos nos campos de batalha do Oriente Médio e mais nos laboratórios, universidades e centros de inovação. Se conflitos externos reduzirem investimentos em educação, pesquisa e tecnologia, a potência dominante pode enfraquecer exatamente os fatores que sustentam sua liderança.

A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã pode ser interpretada como um episódio regional inserido em uma disputa global muito maior. A Armadilha de Tucídides sugere que a ascensão chinesa gera temor na potência dominante americana.

Já a teoria da sobrecarga imperial mostra que o verdadeiro perigo para os Estados Unidos pode surgir da combinação entre rivalidade estratégica externa e fragilidade fiscal interna. Assim, o grande desafio americano não é apenas conter o Irã ou competir com a China. É evitar que os custos de preservar sua hegemonia corroam a própria base econômica, tecnológica e institucional que tornou possível sua liderança mundial.

A lição histórica é clara. Grandes potências raramente perdem sua posição porque um adversário se torna mais forte. Elas a perdem quando as exigências da hegemonia passam a superar sua capacidade de sustentá-la economicamente.

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